“O rock chegou em 1955/56. Mas antes do rock chegar tinha um negócio rolando, assim: Vem aí um ritmo alucinante! Nunca me esqueci. Comecei a ficar apavorado. A garotada falava:Vem aí um ritmo alucinante! Quando apareceu o filme No Balanço das Horas eu só faltei me esconder. Fui criado ouvindo aquelas valsas, sambas e choros. Embora ouvisse música americana, também, como todo mundo: Tommy Dorsey, muito fox, boogie… Chegou o rock e foi avassalador. Levei um susto, fiquei muito traumatizado. A primeira coisa que aconteceu foi o seguinte: começaram a quebrar os cinemas. Neguinho entrava no cinema onde tinha No Balanço Das Horas e quebrava o cinema inteiro. O escândalo fazia parte da coisa. Aí começa a mudar, realmente, toda uma ordem de comportamento.” Paulinho da Viola [1]
“Aquilo era… uma tendência que se manifestava de forma muitas vezes acanhada em poucos de meus conhecidos –e decididamente, não entre os mais inteligentes ou os de personalidade mais interessante... o que se criticava nesses meninos era a inautenticidade psicológica visível em seus esforços de copiar um estilo que os deslumbrava mas cujo desenvolvimento eles não sabiam como acompanhar. [...] Eu me sentia num país homogêneo cujos aspectos de inautenticidade –e as versões de rock sem dúvida representavam um deles– resultavam da injustiça social que distribuía a ignorância, e de sua macromanifestação, o imperialismo, que impunha estilos e produtos.” Caetano Veloso [2]
“O problema não é gostar dos Gun's & Roses. É não gostar do Brasil.” Carlinhos Brown
em mil quinhentos e vinte e três em meliapor índia encontraram na sepultura de são tomé um pequeno amuleto esculpido em pedra verde no formato de uma rã algo fálica. furtado por um marinheiro português este objeto reapareceu dezoito anos depois pendurado no pescoço de um marinheiro da frota de francisco orellana estacionada perto da foz de um rio situado no baixo amazonas local que os espanhóis chamavam de país das pedras verdes e de onde algum tempo depois eles os espanhóis foram postos pra correr pelas icamiabas gentílico que traduzido pro vernáculo significa mulher sem marido. pois bem mas durante a fuga do pega pra capar o acima citado marinheiro espanhol deixou cair o amuleto dentro de um lago chamado iaci uaruá que no vernáculo significa espelho da lua. desde então pra comemorar o cacête que haviam dado nos espanhóis as icamiabas um passaram a realizar uma festa anual dedicada à lua durante a qual dois recebiam os índios guacaris com os quais três se acasalavam para em seguida quatro mergulhar no lago onde cinco buscavam a matéria-prima com que seis moldavam pequenos amuletos iguais àquele usado pelo marinheiro espanhol e quelas sete chamavam de muiraquitã e que oito eram oferecidos como presente aos companheiros guacaris com os quais nove elas haviam feito amor. no ano seguinte à realização das festas da lua as mulheres que tinham parido ficavam com as filhas e deeeeez! entregavam os filhos para os guacaris. e assim foi. durante a maior parte do tempo. do brasil.
mais ou menos por volta de mil novecentos e dez quando decidiu dar uma espiadinha pra ver se havia algo de bom nas selvas do brasil central um certo rúziveu vindo do norte bem que tentou mas não conseguiu ganhar um muiraquitã. mesma coisa haveria de acontecer mais tarde com outros dois daquelas bandas. um chamado fórd e outro lúduig. que também foram embora sem nada no pescoço.
em mil novecentos e vinte e sete mário de andrade informou que ao depor sobre o affair muiraquitã um papagaio falador disse o quê a constar nos autos é o seguinte e assim consta que “macunaíma possuiu ci a mãe do mato rainha das icamiabas” que “ci depois de seis meses teve um menino de cor encarnada e cabeça chata” que “a cobra-preta mordeu o peito de ci” que “o menino sugou o leite da mãe e morreu” que “depois do enterro do menino ci entregou a macunaíma um muiraquitã e logo em seguida ato contínuo subiu aos céus com o auxílio de um cipó.” disse ainda o depoente que “ao visitar o túmulo do filho no dia seguinte macunaíma observou que sobre o túmulo do menino nascera uma planta o guaraná” que como todos sabem é um energético um revigorante. contudo prosseguindo disse o depoente que “macunaíma perdeu o muiraquitã mas o negrinho do pastoreio enviou a macunaíma um uirapuru que revelou ó o muiraquitã tá na mão de um peruano morando em são paulo” e que “macunaíma tão logo disto se fez sabedor decidiu-se sair à procura do tal peruano não sem antes ir até uma ilha onde deixou a consciência e encontrou a poçadágua encantada da qual após entrar saiu branco.” e foi desse modo branco que por fim nas palavras do depoente “depois de recuperar o muiraquitã macunaíma viveu triste e só até mergulhar no lago onde atacado por piranhas perdeu os lábios e uma vez mais o muiraquitã” e que por conta dissotudo “chateado de vez macunaíma plantou um cipó subiu ao céu e virou constelação.”
depois desses fatos e durante muitos anos o paradeiro do muiraquitã que tanta falta faz à seleção brasileira tornou-se incerto pois sabia-se apenas que o presidente getúlio vargas tinha um muiraquitã o qual lhe foi roubado. sabia-se também que em mil novecentos e quarenta e quatro durante a invasão da normandia o tenente rip master o pequeno cabo rusty e rin tin tin encontraram assim de bobeira caído nas areias da praia de omaha um muiraquitã que até hoje ninguém sabe dizer coméque foi parar na mão do vigilante rodoviário o qual em confiança o entregou aos cuidados de um presidente que o liquefez em meados dos anos sessenta para prantos do sucessor que por sua vez veio a perdê-lo logo em seguida bem em seguida prum general que ao muiraquitã endureceu antes de nem sequer vê-lo ser surrupiado por outro também general que o endureceu mais ainda antes de entregá-lo a um colega de farda que jurando amá-lo e jamais deixá-lo estamos falando do miraquitã bem entendido o qual veja só como as coisas funcionam foi parar na mão de mais um outro general que o amoleceu um pouco antes de passá-lo ao colega igual mente de novo verde oliva fardada que ao muiraquitã ameaçava prender e arrebentar antes de entregá-lo a o coronel que o congelou.
depois de virar pó e fusca o muiraquitã foi parar nas mãos do capitão américa de onde a duras penas contrariando os meios e contornando até a barreira do inferno descamisados destelhados desdentados descabelados porém calçados acabaram por resgatá-lo e de tal modo que hoje dois de fevereiro de dois mil e doze dia da marmota nos estados unidos e de yemanjá no brasil o muiraquitã encontra-se mais uma vez nas mãos das icamiabas.
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[1] entrevista publicada no suplemento Mais! Folha de São Paulo p. 12 Domingo 25 de agosto de 2002
[2] Verdade Tropical pp.23 e 253/4 ed. Cia Das Letras São Paulo SP 1997
N.A.
1. Da estória relativa aos 'fatos' ocorridos em Meliapor, Índia e no Baixo Amazonas, não me recordo mais a fonte. Se por acaso encontrar (ou de ela lembrar-me), prometo citá-la. Se, neste sentido, algum leitor puder ajudar-me, a tal desde já agradeço.
2. Respeitando (mais ou menos) a redação original, os fatos narrados entre aspas pelo papagaio falador foram extraídos de uma sinopse de Macunaíma publicada há cerca de uns dez anos pelo prof. Marcos Petrillo Bondan em http://www.bondan.pro.br/ ; e da 31a. edição desta obra maravilhosa de Mário de Andrade (ed. Livraria Garnier Belo Horizonte MG 2000) cujas palavras finais, pela beleza pungente, tomo a liberdade de copiá-las, abaixo, para o leitor interessado.
“Não havia mais ninguém lá. Os filhos dela se acabaram de um em um. Não havia mais ninguém lá. Um silêncio imenso dormia à beira do rio Uraricoera. Ninguém jamais não podia saber tanta história bonita e a fala da tribo acabada.
Um silêncio imenso dormia à beira do rio Uraricoera.
Uma feita um homem foi lá. Era madrugadinha... ‘-Curr-pac, papac! Curr-pac, papac!...’
O homem ficou frio de susto feito piá.
Então o homem descobriu um papagaio verde de bico dourado espiando pra ele. Falou: ‘-Dá o pé, papagaio.’
O papagaio veio pousar na cabeça do homem e os dois se acompanheiraram.
Então o pássaro principiou falando numa fala mansa, muito nova, muito! que era canto e que era cachiri com mel-de-pau, que era boa e possuía a traição das frutas desconhecidas do mato.
A tribo se acabara, a família virara sombras, a maloca ruíra minada pelas saúvas e Macunaíma subira pro céu...
E só o papagaio no silêncio do Uraricoera preservava do esquecimento os casos e a fala desaparecida.
Só o papagaio conservava no silêncio as frases e feitos do herói.
Tudo ele contou pro homem...
E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso vim aqui.
Tem mais não.”
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