“A espera na fila imensa, o corpo negro... se esqueceu.
Enquanto acontecia... eu estava em San Vicente.”
Milton Nascimento
‘San Vicente’
“Existem muitas evidências a sugerir que o Futuro entra em nós de modo a transformar-se, dentro de nós, muito antes de realizar-se. Mais tarde, quando o Futuro acontecer, isto é, sair de nós em direção aos outros, nos sentiremos ligados e próximos a ele em nosso Ser mais interior. De tal forma, que nada estranho nos acontecerá, mas somente aquilo que desde há muito nos pertence.” Rainer Maria Rilke‘Poems’ [1]

Que o Brasil de hoje -com a maioria de seus acionistas (51 %) reconhendo-se como pardos ou negros- esteja encontrando dificuldades no preenchimento dos quesitos necessários para inserir-se na lista dos países mais desenvolvidos é consequência de uma causa datada.
Após a proclamação de independência do Brasil, teria sido razoável imaginar que aos brasileiros se apresentassem novas condições de vida social onde, sob iguais direitos e deveres, sem discriminação, estivessem sujeitos todos os brasileiros. Sim. Seria razoável pensar assim se... nossa independência houvesse sido, de fato, resultado de uma aspiração política originada a partir de uma vontade coletiva. Mas não foi isto que aconteceu. E nem poderia.
Nossa declaração de independência resultou de um ato isolado, individual. Melhor, talvez, seria dizer unilateral e estratégico, uma tentativa da imperial família Bragança de usurpar às Cortes de Lisboa um direito: o direito a uma monarquia constitucional.
Fato singular na História da Humanidade, mediante transferência de seu aparato burocrático para sua mais rica e imperdível colônia, a monarquia portuguesa conseguiu, mantendo um pé aqui outro lá -a salvo das idéias em voga na revolucionária Europa do início do século XIX – garantir seu bem-estar nos dois lados do Atlântico.
Para entender como isso foi possível é necessário conhecer algo sobre o jogo da Política Internacional no início do século XIX quando, então, o ideal político anti-absolutista da Revolução Francesa constituía séria ameaça aos interesses comerciais britânicos, que haveriam de prevalecer, hegemônicos, a partir dos movimentos de restauração das dinastias européias ocorrido no imediato pós-Waterloo e sacramentados no Congresso de Viena em 1815.
Mas esta é uma história para outras linhas que não estas, nas quais seguem considerações menos abrangentes, porém, mais próximas à nossa brasileira realidade.
Que um herdeiro dos Bragança tenha sido I (primeiro) no Brasil e IV (quarto) em Portugal, não é somente o atestado da grande plasticidade política da velha Casa Real lusitana. É, também, o certificado de origem controlada do exclusivo e excludente sistema sócio-econômico aqui implantado desde o Descobrimento e a viger absoluto até 1930 quando, desde então -buscando a sobrevida de uma validade vencida desde há muito- vige, até os dias de hoje, clandestino.
(Senão pela continuidade de um sistema social que não mais ousa pronunciar claramente e sem eufemismos o adjetivo que o qualifica, qual o motivo da incansável prestidigitação de rótulos e marcas, siglas e cores, a que se entregam representações políticas levadas, algumas e por exemplo contemporâneo, ao extremo de criar um partido sem rótulo?)
Tivesse nossa elite colonial desenvolvido uma mentalidade mercantil e industrial, talvez a história do nosso desenvolvimento social fosse outra. Mas...
Impossibilitado por 300 anos (trezentos!) de decretos reais a lhe impedir ou desestimular qualquer tipo de indústria, foi vestido de fazendeiro que o Brasil se apresentou na festa industrial do século XIX.
Economia agrária baseada em mão de obra escrava é um registro desabonador a constar no dossiê histórico de muitos países, hoje, desenvolvidos. Porém, a questão, aqui, é: por que, entre todos os países, o Brasil (que até hoje não realizou uma reforma agrária) foi o mais tardio na reformulação de seu sistema de mão de obra? Ou, de modo mais claro: por que para assegurar a viabilidade de seu sistema econômico o Brasil manteve a escravidão por tanto tempo?
A História e a Economia, é certo, têm respostas para esta pergunta.
E a Psicologia? Teria algo a nos dizer sobre esta questão?
Interrogando-se a respeito do tardio desenvolvimento da Ciência e da Indústria em culturas com vastíssimo e milenar conhecimento das técnicas para tal (como, por exemplo, Índia e China) C. G. Jung pondera: “Faltava o treino do pensamento dirigido. Não havia, nesse sentido, qualquer necessidade que exigisse um pensamento técnico. O problema da mão-de-obra estava resolvido pelo trabalho barato dos escravos [pois os havia em abundância], de modo que eram desnecessários esforços para economizar trabalho. O segredo do desenvolvimento cultural é a mobilidade e a capacidade de deslocamento da energia psíquica.”[2]
Regentes; Conselheiros; Primeiro-Ministros; Senadores; Deputados, Juízes... todos os nossos primeiros executivos, magistrados e legisladores foram grandes proprietários rurais ou filhos destes. Vale dizer: os brasileiros responsáveis pela formação inicial das regras de convivência dentro do Estado brasileiro, foram proprietários dos escravos a partir dos quais se originou o imenso contingente de, por exemplo, solícitas, prestativas e boazinhas mocinhas-da-limpeza sempre 'dispostas' a não cobrar nada a mais pela (mais valia) do cafezinho que, entre outras e muitas coisas, fizeram(?) e serviram(?) para além da restrita obrigação profissional e em detrimento do desenvolvimento cultural que, supõe-se, deveria prover-lhes o Estado brasileiro.
Muito elucidativo a respeito da questão acima é o relato contido em No Tempo de Dantes, escrito em 1945, quando sua autora, Maria Paes de Barros, contava 94 anos.
Não lhe bastasse a longevidade algo incomum, a autora deste pequeno retrato da vida doméstica de uma abastada família brasileira no final do Império, foi um caso espetacular de uma consciência que atravessou um século lúcida, adaptando-se às enormes e sucessivas transformações sofridas pela Consciência Humana durante o período em que viveu e do qual, agora, somos confortáveis críticos e apreciadores privilegiados.
Nascida em 1851 numa das mais (senão a mais) rica família de São Paulo, dona Maria faleceu em 1953.
Antes de apresentar a conclusão deste pequeno ensaio, convido o leitor interessado à leitura de alguns excertos de No Tempo de Dantes disponíveis a seguir.
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[1] pg. 237 ed. Everyman’s Library Pocket Poets, Alfred A. Knopf Inc. 1996 NY-Toronto
[2] Jung, C.G. Obras Completas vol. V Símbolos da Transformação pg.14 e nota 17 ed. Vozes Petrópolis, Rio de Janeiro 1986
No Tempo De Dantes
2a.edição ed. Paz e Terra
São Paulo, SP 1998
São Paulo, SP 1998
“Desaparecida a loucura do entrudo, foi substituída por um carnaval mais complexo e dispendioso.
Luxuosos carros percorriam as ruas. Carros particulares floridos e adornados de custosos veludos de seda levavam personagens a caráter; cavaleiros trajados com magnificência, montando ginetes ricamente ajaezados.
Hoje, já se vê, o carnaval perdeu esse brilho, desceu a escala social e popularizou-se.
Empunhando o ferro de passar, as pretas alisavam seus vestidos e as saias engomadas, deitando, como remate final, uma gota de patchouli no lencinho. A vida doméstica decorria suave e igual...
Os moradores da beira da estrada já eram conhecidos – gente pobre e hospitaleira – que cedia de boa vontade a sua habitação, de pronto invadida por toda a família. (a família da autora, em férias, rumo ao interior...)
Todo esse aspecto de uma serena vida familiar constituía flagrante contraste com a rude e trabalhosa existência dos escravos. Vida essa que somente o espírito obtuso e submisso do africano podia suportar sem revolta. E, no entanto, bastava terem um bom trato e um senhor humano e justo para que vivessem satisfeitos. O descontentamento e as queixas apareceram com os crioulos, seus filhos, que começaram a civilizar-se. Mas, apesar do trabalho forçado que não lhe esgotava a robustez excepcional, o africano, amigo da música e da dança, tinha seus dias de regozijo. O batuque era um transporte para sua alma simples. Com pequena quantia que alguns pretos conseguiam juntar, vendendo na vila o produto da gleba que lhe era concedida, preparavam-se para o dia de São João, sempre tão festivo. Compravam para si uma bonita camisa de cor e uma saia de chita de ramagens para a mulher.
Raça resistente e prolífera! Nunca se queixavam de excesso de trabalho e por pouco que lhes dessem trato, roupa e comida, viviam satisfeitos.
O Comendador dizia, com muito acerto: “-É preciso casar esse negro e dar-lhe um pedaço de terra, para assentar a vida e tomar juízo.” E, realmente, o remédio foi por vezes salutar.
[ref. à guerra com o Paraguay]
Nas classes superiores, se gabavam com orgulho de descender dos que “traziam espada ao lado”! Com que cuidado intentava saber se na família havia mescla de sangue de cor!
Cuidou-se da Marinha, de comprar e construir navios, bem como de organizar um exército. Mas, se nas classes cultas ardiam os brios patrióticos e guerreiros, o mesmo não acontecia entre o povo, para o qual ressoava dolorosamente a palavra “recrutamento”. [...] destituídos de sentimentos patrióticos [...] O alistamento... Os fazendeiros que não queriam ou não podiam mandar seus filhos, libertavam um bom número de escravos, logo enviados para as fileiras do exército.”
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soldado brasileiro da FEB na Itália - 1945
“- Mãe, quem que leva nossa casa pra outra banda do rio lá no teso, quem leva? Fecha os olhos um bocadinho, velha, e pergunta assim.”
Macunaíma, em Mário de Andrade Macunaíma- herói sem nenhum caráter.
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No tempo de dantes. Dantes? (conclusão)
“…assim, pelos olhos o Amor atinge o coração. Pois os olhos são os espiões do coração e vão investigando o que agradaria a este possuir. E quando entram em pleno acordo, firmes, os três em um só se harmonizam. Nesse instante nasce o Amor Perfeito. Nasce daquilo que os olhos tornaram bem vindo ao coração.” Guirault de Borneilh (1138-1200?)
Pensar a Idade Média européia apenas como a “Idade das Trevas” é imaginar que a construção do Renascimento ocorreu somente a partir de 1453, como uma espécie de reaproveitamento do material de demolição do muro de Constantinopla. Porém, a consciência capaz de estruturar o arrazoado expresso na epígrafe acima não parece provir “das trevas”. E não provém.
Que a cortesia seja um dos legados medievais à contemporaneidade é um dos muitos aspectos positivos de um período ocupado, sobretudo, em conter a barbárie (de godos, hunos, vândalos...) e talvez, por isso mesmo, a ressuscitar, lentamente, modos civilizados. E destes modos, aqui, interessa-nos um: o feudalismo, “um sistema de reciprocidade moral unindo pessoas de uma sociedade ameaçada, através de um complexa rede de fidelidade, proteção e obrigações mútuas... a grande tarefa do feudalismo foi restaurar o ordem política e econômica de uma Europa arruinada...”[1].
Porém, o sistema feudal -cujo princípio básico era a fidelidade “do servo para com o lorde, do lorde para com o suserano, do suserano para com o rei, do rei para com o suserano, do suserano para com o lorde e deste para com o servo”[2] não existiu......tchan, tchan, tchan, tchan !... em Portugal[3] onde, parece, a não-utilização do caminho-de-descida na mão-dupla da pirâmidade social feudal, fez configurar-se, lá (e nas colônias portuguesas), o sistema patrimonial que “ao contrário dos direitos, privilégios e obrigações fixamente determinados do feudalismo, prende os servidores numa rede patriarcal, na qual eles representam a extensão da casa do soberano.”[4]
Possivelmente -assim como o feudalismo foi uma resposta pragmática às necessidades do momento histórico da Europa Ocidental medieval- o patrimonialismo foi a maneira que Portugal encontrou para continuar a existir como Estado, observadas, por parte da elite dominante, as sistemáticas tentativas de união à coroa espanhola, sempre propostas por segmentos insatisfeitos da nobreza lusitana.
Contudo, se tal sistema foi vital para a existência do Estado Português, foi danoso para o desenvolvimento de uma consciência cidadã (ou republicana, como queiram) em suas, agora, ex-colônias.
Sabem os historiadores que um dos maiores (e comum) equívoco a que todos nós estamos sujeitos diante de um dado fato histórico, é o anacronismo: julgarmos as atitudes dos protagonistas de tempos diferentes do nosso a partir de conceitos ou valores vigentes em nossa época, porém, estranhos à consciência possível ou vigente no período histórico em análise.
A sociedade descrita por dona Maria Paes de Barros em Nos Tempos de Dantes, certamente, e como todas as outras do passado, fez o melhor que pode nas circunstâncias que não escolheu para viver. O processo histórico (a vida humana) é uma espécie de corrida de revezamento com bastão: transmitimos para os que nos sucedem a sabedoria (enriquecida ou empobrecida) que recebemos daqueles que nos antecederam.
Referindo-se em seu pequeno relato a ocasiões distintas da vida social, a sua e a dos outros “ao redor”, dona Maria utiliza, de modo notável, repetidas vezes a expressão “flagrante contraste”...
A questão é: por que, encerrada a primeira década do século XXI, esta expressão -adequada para definir o grau de igualdade entre as camadas sociais da sociedade brasileira no final do século XIX- continua a ser pertinentemente atual... nesta mesma sociedade?
A certa altura da narrativa em Nos Tempos de Dantes, dona Maria observa (pg.50): “A vida doméstica [final do séc. XIX] corria suave e igual, somente afetada por fatores de ordem interna, sendo por isso mais intensa portas adentro do que fora, ao contrário do que sucede hoje em dia [início da década de 50 do séc. XX].”
Pois bem, hoje[final da primeira década do séc. XXI], infelizmente, o que está a ocorrer nos espaços exteriores da sociedade brasileira está a afetar de modo profundamente negativo os espaços interiores da intimidade pessoal e familiar dos brasileiros que, a buscar cercarem-se cada vez mais alto e a entrincheirar-se cada vez mais irredutíveis na segurança de espaços cada vez mais privados e menos sociais, talvez acabem por implantar o 'feudalismo do século XXI'.
Para livrar-se de uma realidade percebida como imoral ou abjeta, a natureza humana costuma servir-se de uma entre duas portas de saída: ou cuida de erradicar externamente o quê percebe são as causas desta realidade; ou trata de erradicar internamente -mediante o desenvolvimento de um juízo fantasioso, porém tranquilizador e confortável- essa mesma realidade que, percebida de outro modo, seria insuportável... para uma consciência civilizada.
A pista sobre a qual se desenvolve a corrida de revezamento da Vida (o processo histórico) possui três raias nas quais em apenas uma -e só muito recentemente- o Brasil tem se exercitado: a liberdade, a igualdade e a fraternidade.
Direcionar coletivamente o olhar-espião a que se refere o trovador da epígrafe, talvez seja um modo de nós, os brasileiros (“ou os tanzanianos”[5]) contermos a barbárie acumulada em séculos de liberdade restrita e individualismo exacerbado.
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[1] Will Durant pgs. 564/579 de The Age of Faith The Story of Civilization vol. IV The Easton Press, Norwalk, Connecticut 1992
[2] Id. op. cit pg. 560
[3] Raymundo Faoro pg. 24 de Os Donos do Poder vol. 1 ed. col. Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro, Publifolha, Sp, SP 2000
“Portugal não conheceu o feudalismo. Não se vislumbra, por mais esforços que se façam para desfigurar a História, uma camada, entre o rei e o vassalo, de senhores dotados de autonomia política.” (ver também opinião de Herculano de Freitas em nota 42 pg 32)
[4] Id. op. cit pg. 25
[5] “Talvez os brasileiros (ou tanzanianos, ou alguém) sejam capazes de se esquivar, apesar de tudo aquilo que as superpotências podem fazer para impedi-los. Talvez algum dia os cidadãos alfabetizados de algum país possam ver perspectivas onde antes viam apenas perigos. Ver um, até agora, não-sonhado futuro nacional em vez de ver o país deles como condenado a seguir o papel que algum teórico estrangeiro escreveu para ele.”
Richard Rorty, filósofo estadunidense, professor da Universidade de Stanford
cit.In caderno Mais! pág. 7 Folha de São Paulo Domingo 16 de setembro 2001


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