trechos de
“OUTROS 500 - Uma Conversa Sobre A Alma Brasileira”
Lucy Dias e Roberto Gambini“OUTROS 500 - Uma Conversa Sobre A Alma Brasileira”
1999 ed. SENAC ISBN 85-7359-080-7
1
“Estar todo mundo junto cria alegria. O que ocorre do lado de fora é resultado do que ocorre dentro de nós. Necessitamos entender o que nos move e inspira a agir. Não estou preocupado com a verdade histórica, estou preocupado com o ressurgimento de uma alma perdida. O que não tem lugar dentro e não pode ser assimilado, será projetado para fora e destruído. Um menino brasileiro, filho de pai português e mãe tupinambá, não tem lugar na corte, é um pária, fruto de um acaso. Também não pertence ao mundo da mãe. Vai ficar num vazio, à espera de que algo seja construído. Não sabe que direção seguir e nunca saberá quem é. Nem pai nem mãe lhe servirão de espelho ou modelo de identidade.
O Índio
O mundo da mãe tinha mais Eros. Não havia a separação abrupta entre trabalho e lazer. Uma condição rara de instinto e cultura, juntos, criavam um comportamento que não estava em conflito com nada. Não estava em conflito consigo, com a sociedade, com o pai, com o marido, com os papéis sociais. Não havia neurose. Não existia a sobrecarga da má consciência sobre a sexualidade. Não havia a noção de culpa. Não havia promiscuidade e falta de decoro. Havia regras de comportamento sexual. Todos transando com todos, fazendo o que bem entendem onde quiserem, é uma projeção sem- vergonha do mundo branco, qualquer antropólogo sabe disso.
O Branco
Amaldiçoado na tradição judaico-cristã, expulso do paraíso, o pão é conquistado com o suor, o parto é uma amargura, o trabalho é uma amargura. No momento das Grandes Descobertas, vitorioso, nada segura esse homem com tanta energia investida no ego. Dono de todas as verdades, de todas as certezas e de todas as armas. Mata mouros e persegue judeus porque os considera étnica e espiritualmente inferiores. Não é o modelo do quaker americano- marido, mulher e uma enxada. O Novo Mundo é uma válvula de escape psíquica para a sombra da Europa. Reinvindica territórios, tem impulsos genocidas, estupradores e saqueadores. Explorador, tem mobilidade espacial, uma tropa atrás e uma obsessão na frente. A consciência do senhor de engenho, da sinhazinha, do padre, do oficial, do bacharel, do coronel… são consciências felizes porque estão aliviadíssimas, não tem que carregar nada. "Não existe pecado debaixo do equador."
O Negro
Na escola aprendemos que alguém tinha que construir feitorias, igrejas, abrir estradas, fazer aldeias, cortar pau-brasil, plantar cana… e não era o índio. O negro vem para uma imposição a que o índio não resistia, a escravidão. Para a criança fica assim: o negro era forte, ele agüentava, por isso era escravo. Parece que se trata apenas de uma contribuição material. Não existe segregação racial no Brasil. Não precisa. A exclusão social faz esse trabalho. Entrar numa escola e ter um lugar no mercado de trabalho é ótimo, parece até que seria o máximo, mas não é. Fica faltando um trabalho de alma, de reconhecimento, de relação entre partes. O Estado ou a sociedade brasileira deveriam reconhecer que tem um débito para com os descendentes de escravos. E isso precisaria ser compensado de alguma maneira. Um gesto que seja resultado de toda uma transformação psíquica, ou seja, propor-se a reparar.
Nós
Uma dimensão fundamental fica oculta nessa História. Como é que se inseriram esses 3 grupos para começar a construir uma identidade, se 2 deles serão negados na sua humanidade, nos seus valores e na sua alma? Não houve síntese, porque há uma negação. Havia uma recusa, por parte do elemento dominante, de incluir a identidade dos dominados. Os filhos da terra são maltratados e desprezados. Nós precisamos de símbolos de comunhão, de síntese, de junção das partes. Hoje vemos o sofrimento dos miseráveis nas cidades e, também, passamos ao largo. O outro, de classe inferior, as crianças abandonadas, não nos dizem respeito. Nos tornamos bárbaros com o passar dos séculos, até chegar onde chegamos. Nascemos como um povo que se aliena da dor alheia, desumanizando o semelhante. As diferenças sociais não nos indignam, porque se confundem com diferenças físicas, naturais e corpóreas. O Brasil tem muita energia vital, mas tem uma tristeza enorme. A tristeza daquele que não vê o seu valor reconhecido, daquele que sabe que podia ser diferente, que não tinha que ser assim, que arrasta uma coisa que não combina. Isso entristece porque não se consegue mudar, mas a gente sofre. Cada uma das barbaridades que acontecem a cada dia, as barbaridades brasileiras, a mortalidade infantil, a seca, o caos urbano, a violência, a imoralidade e a corrupção, as patologias todas… Há um débito psíquico que, se não for formulado e trabalhado, não permitirá que surja um processo de conscientização da identidade. A partir do segmento dominante da sociedade continua a haver um mecanismo perverso de impedir que pedaços da alma brasileira façam parte do todo. Não espero mudança por parte da elite, mas espero, sim, da consciência coletiva brasileira. Quem somos nós? Qual é a nossa História?”
2
“…a formação do povo brasileiro… começamos com um ato de destruição e de negação. …duas civilizações se encontram, se juntam, mas uma nega a outra. Os índios são o objeto da primeira negação. Mas logo em seguida vem a segunda, que é a negação do negro… Quando pensamos em "nós, os brasileiros", temos consciência de que somos um povo multirracial… mas na hora em que alguém, de fato, tem que pensar o que é o brasileiro, não pensa no negro. É um pouco assim: 'eu sou feito de várias partes, porém só me identifico com algumas dessas partes e não com outras' ou 'acho que certas partes não tem o mesmo valor que outras' Aí reside o problema… reconhecemos uma coisa num plano mas a negamos no outro… não levamos em conta o contingente de alma daqueles que foram dominados. Então, aí se oculta uma sabotagem…a sociedade brasileira está amarrada mas não sintetizada …não houve amálgama, não houve síntese. Por quê? Porque houve uma negação. …importa é o nível onde não houve expressão, reconhecimento, comunhão, e que continua sendo uma dimensão dramática, da qual só podemos ver os efeitos… isso cria um ser mal-resolvido. Cria uma tensão interna em nível profundo… não podemos ser um todo enquanto houver esse tipo de relação entre as partes. Nós precisamos de símbolos de comunhão, de síntese, de junção das partes para a produção de uma nova resultante. Esses símbolos nos orientariam para um tipo de reflexão coletiva que tivesse como objetivo superar esse estado que nos aprisiona. Isso nos ajudaria em termos de superação do subdesenvolvimento e de afirmação do Brasil… Essa situação que vivemos prende energia, impede o aparecimento do novo. É preciso soltar essas amarras para deixar fluir a criatividade cultural e social. Deixar surgir novas formas de sociabilidade, que depois vão virar projetos políticos e sociais. Quando se destrava uma estrutura profunda que aprisiona a energia, essa força vem à tona. É disso que o Brasil precisa.”
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ZEROPRAMIM
DEZPRAELES
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