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Terça-feira, Dezembro 28, 2010

Os diamantes brutos do Brasil

...e seus desastres sociais
Homero Mattos Jr.

No Brasil, de geologia consolidada não há graves abalos, cataclismas ou convulsões tectônicas nem vulcânicas. Também, não se encontra o Brasil sujeito a maremotos, tsunamis, monções arrasadoras e outros grandes aguaceiros afins. Nossas grandes metrópoles inundam no período das chuvas de verão. Mas essa é outra e recentíssima história, onde a Natureza apenas reage.
Nossos desastres, de longuíssima data, são sociais.
E não se trata de, aqui, recontar aquela famosa piadinha de viés colonizador, na qual Deus -questionado por alguns se, por acaso, não teria sido grande demais o número de benesses naturais com as quais houvera contemplado o Brasil- responde: "-Vocês vão ver o povo que eu vou colocar nesse lugar." (E os rastaqueras morrem de rir). Trata-se de clamar por um fim, um basta! no processo conhecido mundialmente como 'brazilianization' e que consiste em elevadas taxas de crescimento econômico acompanhadas por aumentos exponenciais dos níveis de desigualdade na distribuição de... tudo!
O nível insuportável da violência e criminalidade urbana no Brasil é fruto de... repare: se você é, digamos, um puritano inglês do século XVII decidido a sair com a família de seu país de origem em busca de outro lugar para reconstruir a vida, sua disposição psíquica, moral e filosófica é completamente diferente daquelas encontradas em seu contemporâneo, por exemplo, digamos um português aventureiro, disposto a arrancar o que puder de uma terra para qual pouco está se lixando, uma vez que seu interesse é voltar -o mais rápido possível e com o bolso o mais cheio cabível - para sua terra natal, lá, onde estão seus mais elevados afetos e aspirações morais. Pois é. Como diz Roberto Gambini, entre um quaker com uma enxada e a familia, e um bandeirante com uma escopeta e uma licença para matar, há uma enorme diferença. Ou, dois tipos de Justiça, acrescento eu.
Mas nossos desastres são reversíveis.
A palavra 'favela' designa uma planta da região de Canudos, no sertão da Bahia.
Depois que (as autoridades) massacraram os habitantes do lugar (e precisaram fazer quatro tentativas para realizar a 'façanha'), os soldados que retornaram foram desmobilizados e... obrigado, benção e tchau! tal qual aos escravos ocorreu após a Abolição, foram deixados à míngua, na base do cada-um-por-si. Com o início das obras de reurbanização do Rio de Janeiro (1910), a maior parte destes soldados começou a se instalar com suas famílias, nos morros, em locais denominados à lembrança da miséria que haviam conhecido em Canudos.
E, continue reparando, é das favelas que provém parte considerável das (talvez as maiores) conquistas culturais e desportivas pelas quais o Brasil conseguiu, e ainda consegue, gerar alguma simpatia internacional.
Imaginemos, então: quanto mais poderia realizar o Brasil se ao povo das favelas (i.e. 'Canudos') fossem concedidos os mesmos incentivos, meios e condições favoráveis que até agora só lhe é possível desfrutar na música e no esporte?
Por ‘povo das favelas’ quero referir-me aos descendentes do menino abaixo retratado:

... menor de nove anos, figurinha entroncada de atleta em embrião, face acobreada e olhos escuríssimos e vivos, surpreendeu-nos pelo desembaraço e ardileza precoce. Respondia entre baforadas fartas de fumo de um cigarro, que sugava com a bonomia satisfeita de velho viciado. E as informações caíam, a fio –quase todas falsas, denunciando astúcias de tratante consumado. Os inquiridores registravam-nas religiosamente. Falava uma criança. Num dado momento, porém, ao entrar um soldado segurando um [rifle] Comblain, a criança interrompeu a fala ininterrupta. Observou, convicto, entre o espanto geral, que ‘a Comblé’ não prestava. Era uma arma à-toa, ‘xixilada’: fazia um ‘zoadão danado’, mas não tinha força. Tomou-a; manejou-a com perícia de soldado pronto; e confessou, ao cabo, que preferia a ‘Manuliche’ (Mannlicher), uma carabina ‘de talento’. Deram-lhe, então, uma Mannlicher. Desarticulou-lhe agilmente os fechos, como se fosse aquilo um brinquedo infantil predileto. Perguntaram-lhe se havia atirado com ela em Canudos. Teve um sorriso de superioridade adorável: ‘-E por que não? Pois se havia tribuzana velha!... Haverá de levar pancada, como boi acuado, e ficar quarando à toa, quando a cabrada fechava o samba desautorizando os praças?!
Aquela criança era, de certo, uma deformidade estupenda. E um ensinamento. Repontava, bandido feito, à tona da luta, tendo sobre os ombros pequeninos um legado formidável de erros. Nove anos de vida em que se adensavam três séculos de barbárie. ...
Euclides da Cunha 1899, em ‘Os Sertões’ pp 310/311

O retrato do colonizado precedido pelo retrato do Colonizador





Opinião pessoal: a foto e a legenda, da capa acima, constituem tentativa (goebbeliana) de desconstruir uma instituição republicana.
A metonímia a legendar a foto é inadequada. Não se presta à sua função. A parte (um milhão e meio) com a qual se pretende sugerir possa ser a feição do todo (cento e trinta milhões) é mínima.
Contudo, tal intento, embora inaceitável, é compreensível. À luz de nossa História. Sobretudo em um momento em que, pela segunda vez nesta História (a primeira foi às vésperas de 1964...), o Congresso Nacional passa a ter a maioria de seus representantes simpática a um Executivo popular.
A descolonização do Brasil, bem como a de toda a América Latina, ainda é um processo em andamento.
Nossa Declaração de Independência, em 1822, resultou de um ato isolado, unilateral e... familiar. Familiar no sentido mais feudal e cosa nostra da palavra família.
Mediante transferência de seu aparato burocrático para sua mais rica e imperdível colônia, a monarquia portuguesa (a família Bragança) conseguiu, mudando sem mudar, garantir a continuidade de seu bem-estar nas duas pontas: lá e aqui.
Que o imperador Pedro tenha sido primeiro no Brasil e quarto em Portugal, mais do que prova da grande versatilidade e manha de nossas antigas elites dirigentes em assegurar (localmente) privilégios coloniais em tempos (mundialmente) revolucionários, evoca uma reflexão sobre quão modificada encontra-se, nos dias atuais, tal tendência (local).
Voltarei a esse tema.
Por ora gostaria de convidar, o leitor interessado, a conhecer algumas passagens da obra a partir da qual tomei emprestado o título deste breve ensaio.
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excertos de
'O retrato do colonizado precedido pelo retrato do Colonizador'
Albert Memmi
3a.edição ed. Paz e Terra, São Paulo, SP 1989

o Colonizador
Se seu nível de vida é elevado, é porque o do colonizado é baixo; se pode beneficiar-se de mão-de-obra, de criadagem numerosa e pouco exigente; se obtém tão facilmente postos administrativos, é porque estes postos lhe são reservados e porque o colonizado, deles, está excluído; quanto mais respira à vontade mais o colonizado sufoca. Pirâmide dos tiranetes: cada um, socialmente oprimido por outro mais poderoso, encontra sempre um menos poderoso em quem apoiar-se, tornando-se por sua vez tirano. A multidão de mendigos, as crianças que perambulam semi-nuas, a evidente organização da injustiça, o escândalo econômico, político e moral... Para viver sem angústia, é preciso viver distraído de si mesmo e do mundo; é preciso reconstruir em torno de si os odores e os ruídos da infância. ...simulando nada ter visto da miséria e da injustiça que entram pelos olhos; empenhado apenas em conseguir seu lugar, obter sua parte...subitamente providos de um título surpreendente ...adquirem tão desmesurada confiança em si mesmos que se tornam estúpidos.
Olhando mais de perto, não descobrimos, em geral, além do fausto ou do simples orgulho, senão homens de pequena estatura moral. Políticos, encarregados de modelar a história, quase sem conhecimentos históricos, sempre surpresos com os acontecimentos, recusando os fatos ou incapazes de prever. ...como privilegiado não legítimo reivindica seu lugar e o defenderá por todos os meios. Triunfa de si mesmo uma imagem que condena. Sua vitória de fato, portanto, jamais o satisfará: resta-lhe lavar-se de sua vitória, e das condições nas quais foi alcançada. (então) esforça-se por falsificar a história, reescrever textos ..Não importa o quê, a fim de conseguir transformar sua usurpação em legitimidade.
Como?
...demonstrar os méritos do Colonizador ou deméritos do colonizado, (estes) tão graves que não podem senão suscitar tal desgraça. E esses dois esforços são de fato inseparáveis. ...imagens não são inconseqüentes, difundidas acabam por repercutir, de certa maneira, na conduta e portanto na fisionomia real do colonizado. Que é o fascismo senão um regime de opressão em proveito de alguns? As relações humanas (na relação colonial) resultam de uma exploração tão intensa quanto possível, fundam-se na desigualdade e no desprezo ...Existe, enfim, um antagonismo real, com fundamento político e econômico. "Aqui", "o povo daqui", "os costumes deste país"... são sempre inferiores, e muito, em virtude de uma ordem fatal e preestabelecida.
O Colonizador não faz coincidir seu futuro. Só está aqui de passagem, não investe senão no que rende a curto prazo. A verdadeira razão ...O Colonizador jamais decidiu-se a transformar o colonizado à sua imagem. Não pode admitir tal adequação que destruiria o princípio de seus privilégios. A explicação ...Essa impossibilidade ...prende-se à natureza ...Aquele que se sabe em má postura ideológica ou ética, gaba-se, em geral, de ser um homem de ação, que retira lições de sua experiência. Conjunto de condutas, de reflexos adquiridos, exercidos desde a primeira infância, valorizado pela educação, o racismo do Colonizador está tão espontaneamente incorporado aos gestos, às palavras.
...atitude racista: descobrir e por em evidência as diferenças; valorizar essas diferenças em proveito do Colonizador e em detrimento do colonizado; levar essas diferenças ao absoluto, afirmando que são definitivas, e agindo a fim de que se tornem tais. O que poderia contribuir para algo em comum, o Colonizador salienta, ao contrário, tudo aquilo que separa. O fato sociológico é batizado biológico, ou melhor, metafísico. Pertence à essência do colonizado (e assim) a relação torna-se uma categoria definitiva. "É o que é porque eles são o que são" e nem um nem outro jamais mudará.

o colonizado
A existência do Colonizador reclama e impõe uma imagem do colonizado. Álibis, sem os quais a conduta do Colonizador, sua existência, pareceria escandalosa. ...a preguiça ...Nada poderia legitimar melhor o privilégio do Colonizador que seu trabalho; nada poderia justificar melhor o desvalimento do colonizado que sua ociosidade. O retrato mítico do colonizado conterá então uma inacreditável preguiça. O do Colonizador: o gosto virtuoso da ação. Subalimentação; baixos salários; futuro bloqueado; significação irrisória de seu papel social ...a independência da acusação de quaisquer condições sociológicas e históricas, institui o colonizado como ser preguiçoso. A preguiça é constitutiva da essência do colonizado. Verdadeiramente, o colonizado importa pouco para o Colonizador. (que) Longe de querer apreender o colonizado na sua realidade, preocupa-se em submetê-lo a essa indispensável transformação. ... o colonizado "não é isso", "não é aquilo". Jamais é considerado positivamente. "Eles são imprevisíveis"... "Com eles nunca se sabe!"...
Uma estranha e inquietante impulsividade parece comandar o colonizado. É preciso que o colonizado seja bem estranho, em verdade, que permaneça tão misterioso após tantos anos de convivência... despersonalização... afogamento no coletivo anônimo. "Ele são isso... Eles são todos iguais". Se a empregada doméstica não vem certa manhã, o Colonizador não dirá que ela está doente, ou que ela engana, ou que ela está tentada a não respeitar um contrato abusivo (sete dias em sete). Afirmará que "não se pode contar com eles". ... acontecimentos pessoais, particulares, da vida de sua empregada; essa vida na sua especificidade não o interessa, sua empregada não existe como indivíduo.
... esse delírio destruidor do Colonizador ... Em confronto constante com essa imagem de si mesmo, proposta e imposta, acaba o colonizado por reconhecê-la como um apelido detestado, porém convertido em sinal familiar. A acusação o perturba, o inquieta. "Não terá um pouco de razão?", murmura o colonizado. "Não somos, de certo modo, um pouco culpados?" "Preguiçosos, já que temos tantos ociosos?" "Medrosos, já que nos deixamos oprimir?"
Desejado, divulgado pelo Colonizador, esse retrato mítico e degradante acaba, em certa medida, por ser aceito e vivido pelo colonizado. Ganha assim certa realidade e contribui para o ‘retrato real’ do colonizado. A ideologia de uma classe dirigente, sabemos disso, faz-se adotar em grande parte pelas classes dirigidas. Verifica-se certa adesão do colonizado ao Colonizador. Mas essa adesão é resultado, e não causa; nasce depois e não antes.
O colonizado não se sente nem responsável nem culpado, nem cético, está fora do jogo. Não é mais, de modo algum, sujeito da história... Acabou por perder o hábito de qualquer participação ativa na história e nem sequer mais a reclama. ?Como explicar que um punhado do Colonizadores, freqüentemente arrogantes, possa viver no meio de uma multidão de colonizados?
Enquanto que a indulgência é plena para os pequenos arsenais do Colonizador, a descoberta de uma arma enferrujada acarreta uma punição imediata ao colonizado.
"Não são capazes de se governarem sozinhos" diz o Colonizador. Inteiramente afastado do poder, acaba (o colonizado), com efeito, dele perdendo o hábito e o gosto. Como poderia interessar-se por aquilo de que é tão decididamente excluído? Como poderiam tão longas férias suscitar competências?
Pode o Colonizador prevalecer-se deste Presente fraudado para barrar o Futuro?
Essa mutilação social e histórica é provavelmente a mais grave e mais carregada de conseqüências. Considerando-se excluído da cidadania, o colonizado perde igualmente a esperança de ver seu filho tornar-se um cidadão. Cede, renunciando ele mesmo a essa esperança, não alimenta mais esse projeto e não lhe dá lugar algum na sua pedagogia. Nada, pois, sugerirá ao jovem colonizado a segurança, o orgulho de sua cidadania. Dela não esperará vantagens, não estará preparado para assumir seus encargos. Nada, tampouco, é claro na sua educação escolar, onde as alusões à cidadania, à nação, serão sempre relativas à nação do Colonizador. Esse vazio pedagógico, resultado da carência social, vem, pois, perpetuar essa mesma carência.
Sua fisionomia endurecida há séculos não é mais do que uma máscara, sob a qual ela sufoca e agoniza lentamente. Tal sociedade não pode reabsorver os conflitos de gerações, pois não se deixa transformar.
A relação entre o Colonizador e o colonizado é instável, seu equilíbrio está incessantemente ameaçado, sua personalidade oprimida, um dia se dispõe a recusar sua insuportável existência. ... mudar de condição mudando de pele ... ambição de igualar-se a esse modelo prestigioso, de parecer-se com ele até nele desaparecer.
No momento em que o Colonizador mais transige com sua sorte, o colonizado recusa-se a si mesmo com maior tenacidade. ...um complexo de sentimentos que vão da vergonha ao ódio de si mesmo. Em nome daquilo que deseja vir a ser, empenha-se em empobrecer-se, em arrancar-se de si mesmo. Para libertar-se, aceita destruir-se.
A condição da relação entre o Colonizador e o colonizado não pode ser mudada senão pela supressão da relação colonial. É inútil pretender agir sobre um ou outro, sem agir sobre essa relação.
...há um drama ...A colonização falsifica as relações humanas, destrói ou esclerosa as instituições e corrompe o Colonizador e o colonizado.”

Homero Mattos Jr.
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As vias fechadas da América Latina


“Os erros… dos filhos, dos empregados, dos fracos, dos indigentes, dos ignorantes... são os erros dos pais, dos patrões, dos fortes, dos ricos, dos sábios... A sociedade é culpada por negar-lhes educação... Ela reproduz a escuridão que fabrica. O culpado não é o pecador, mas aquele que o faz viver na escuridão.”
Victor Hugo em Os Miseráveis[1]



Miserável designa tanto o destituído quanto o avaro. Ou, nas palavras de Victor Hugo: “o desafortunado e o infame”. E porque -sempre e em toda parte- da erradicação de um resulta a erradicação do outro, a existência de um é sintoma da existência do outro. No primeiro caso, temos civilização. No segundo, barbárie.
Por isso, diz-se que a História é: “o lento pulsar do coração do organismo social, uma sístole e diástole entre concentração de riqueza e explosão revolucionária.”[2] Neste sentido, é curioso notar que, de início, nenhuma das grandes revoluções políticas da História originou-se a partir de pretensões visando mudanças do regime, mas, no regime. Se reis foram enforcados, guilhotinados, colônias foram perdidas e um tzar fuzilado, tais ocorrências se deram por conta da insensatez de uma nobreza intransigente ante o clamor de súditos até então desafortunados, porém, ainda condescendentes.
Pretender que o fluxo da riqueza possa circular apenas por um dos lados do organismo social é auspiciar-lhe a morte. Por hipertensão.
Contudo...
De um modo geral, em seu passado colonial os povos da América Latina padeceram de: 1) espoliação da riqueza local; 2) desprezo pelos naturais e mestiços da terra; 3) trabalho escravo - a excluir do ciclo econômico a maior e sempre crescente parcela da população: a mestiça; 4) crudelíssima repressão a toda e qualquer forma local de autonomia: industrial; política e, é claro, de informação (ou educação, em outras palavras)
Com o advento da Independência das 13 colônias norte-americanas e da Revolução Francesa, aos poucos, ao longo dos últimos dois séculos e muita luta, foram sendo minimizados todos os aspectos repressivos da economia e cultura colonial descritos acima. Hoje, entretanto, mais do que em qualquer época anterior, por força da ascensão de líderes populares ao Poder Executivo de seus Estados, para a maioria dos latino-americanos, sobretudo os do sul, encontram-se francamente abertas todas as vias de acesso ao desenvolvimento material e espiritual. Todas, menos as da informação...
Desde meados desta primeira década do século XXI, a vergonhosa assimetria entre a renda ricos e pobres vem caindo aceleradamente na maior parte da América Latina e, notavelmente, no Brasil. Entretanto, tal progresso regional, que deveria ser motivo de ampla satisfação e união nacional em torno de um objetivo comum (o desenvolvimento de cada país em particular e da região como um todo), tem se mostrado fator de esgarçamento da harmonia social, na medida em que -a partir de abordagens enviesadas por parte da grande imprensa local, concentrada esta nas mãos de poucas empresas, quase sempre pertencentes a grupos familiares oligárquicos- aos olhos de inúmeros e supostamente bem-educados cidadãos locais, muitos dos atuais chefes de Estado dos países latino-americanos tem sido reportados como: bêbados ("cachaceiros"), vagabundos, preguiçosos, analfabetos, ignorantes, ladrões, irresponsáveis, incompetentes, despreparados, grosseiros, populistas...
Embora estranho, seria até aceitável que alguns pudessem sê-lo.
Mas é difícil acreditar que desses muitos o possam ser todos!
E, fato notável: tais líderes -francamente ciosos no que se refere à independência, dignidade e altivez dos povos que representam perante a comunidade internacional- se encontram em flagrante oposição à lideranças que, reportadas como sóbrias, ativas, operantes, cultas, honestas, responsáveis, competentes, preparadas, charming, encantadoras, democráticas... tradicionalmente se mostram ...er... digamos, mais compreensivas (ou tolerantes) face aos, historicamente contumazes, imperiais achaques e espoliações.
Como é possível isto?
Para entender isto, é necessário responder outra pergunta: quê interesses se percebem ameaçados?
E mais: tais interesses seriam, de fato, nacionais?
Para a História talvez não haja resposta única. Tal relatividade, porém, não nos redime de ignorar certos fatos em comum na História da América luso-espanhola. Ao menos, os mais determinantes.

Na Europa do final do século XVIII e início do século XIX, ao lado dos soldados invasores de Napoleão, caminhavam as idéias de uma revolução responsável pelo fim do antigo regime. Com isso, enfraquecidas as monarquias européias, em especial as ibéricas, os líderes políticos da América luso-espanhola, grandes proprietários de terra, não perderam a oportunidade que a ocasião lhes apresentava para livrar-se da tutela de Metrópoles cada vez mais ávidas na cobrança de exorbitantes direitos alfandegários e impostos. Então, de imediato, uma logo após a outra, proclamações de independência fizeram-se ouvir nas colônias americanas luso-espanholas. Porém, tais proclamações não significavam, como no caso europeu, um basta! às velhas tradições do servilismo feudal características do antigo regime. Cuidavam, exatamente, do oposto: de mantê-las.
Na América portuguesa, a imperial família Bragança –retornando para sua real-fazenda lusitana, fez apenas informar a todos os seus distintos clientes e nações amigas que, doravante, a real-fazenda brasileira estaria sob nova (porém familiar) administração.
Por não haver possibilidade de fazerem-se imperiais arranjos familiares ao modo lusitano, a América espanhola, contrastando com um Brasil imperial, tornou-se republicana. E de tal modo que a cada um de seus primeiros presidentes correspondia um poderoso proprietário de terras, mais capacitado do que outros para reunir homens armados a título de formarem-se os exércitos de libertação. Se assim não houvesse sido, seriam apenas cinco ou seis (e não vinte) os atuais países de fala espanhola na América.
Mas os fatos acima se deram quase que como uma troca de seis por meia-dúzia, uma vez que nenhum dos arranjos oligárquicos independentes latino-americanos teria se concretizado caso os representantes das oligarquias rurais que os formularam tivessem se recusado a, conforme lhes foi exigido, hipotecar suas vistosas faixas presidenciais aos interesses mercantis do maior Império da época: a recém-industrializada Inglaterra. Razão pela qual, aos poucos e contrariando seus próprios interesses feudais, a agrária plutocracia latino-americana viu-se obrigada a fazer concessões relativas a “...todos os aspectos repressivos sócio-econômicos e culturais...” sobre os quais assentavam-se privilégios cujos apetites, por maiores que pudessem ser, eram pequenos demais para sobrepujar as necessidades de outros -e mais poderosos- apetites: os das fumegantes fábricas instaladas em Manchester, Leeds...
Ainda assim, observe-se a notável resistência a mudanças na ordem social do Brasil, onde nem mesmo all the king’s men&gold and all the king’s ships&guns foram capazes de extirpar a escravidão.
Porém, menos de uma década após Napoleão ser derrotado (em 1815) pelas forças partidárias do antigo regime, um novo player -a desafiar os interesses ingleses- começou a fazer sentir sua presença na eterna dança da troca-das-cadeiras pela hegemonia mundial.
Diferentemente de seus pares continentais ao Sul, os Estados Unidos da América do Norte originaram-se a partir de uma concepção de povoamento e não de espoliação, ou seja, os aventureiros que para lá se dirigiram o fizeram, grosso modo, sem a intenção de retornar para seus pontos de partida. Vale dizer: estavam ‘em casa’ e não ‘de passagem’. Por isso, talvez, tenham elaborado (em 1823) a famosa Doutrina Monroe: “a América para os americanos” (do Norte), cujos termos implicavam em um ‘chega pra lá’ dirigido aos ouvidos da Inglaterra e um ‘vem pra cá’ endereçado aos corações das Repúblicas latino-americanas, insatisfeitas estas com as imposições comerciais e alfandegárias inglesas (sempre o problema dos impostos...).
E assim, a partir de então -aproveitando-se de uma atávica predisposição das elites governantes regionais, qual seja: procurar auxílio externo poderoso para garantir a continuidade dos privilégios de poucos, impossíveis de se perpetuarem em meio a muitos- “se enredando eredando como el musguito em la piedra, ao longo de quase dois séculos foi se fazendo sentir a profunda influência dos Estados Unidos na vida política e econômica da América Latina.
No caso brasileiro, a falta de afinidade da monarquia -mais inclinada a permanecer ao lado dos primos europeus- com o sistema presidencialista, não chegou a representar um obstáculo intransponível às pretensões hegemônicas estadunidenses. Nada que um bom conflito entre iguais não pudesse resolver. E os oligarcas rurais com mentalidade mais progressista (industrial), prevaleceram sobre seus pares mais inclinados a manutenção do regime escravagista. Tal a origem da República brasileira.
Foi assim. É assim.
Da Babilônia a Persépolis, de Roma a Washington, passando por Londres, é sabido: os impérios dividem para governar. Ou, melhor: imperam dividindo. E o fazem mediante cooptação das elites locais, uma vez que, nelas (desde muito antes de Hollywood e das 'novelas das 8') espelha-se a massa.
E porque existem diferentes tipos de elite, as escolhidas são, precisamente, as mais adequadas para executar o trabalho que delas se espera.
Então, had hoc, são selecionadas aquelas parcelas da elite as quais o diplomata brasileiro Joaquim Nabuco (em 1895)[3], observando seus patrícios em viagens à Europa, definiu como rastaqueras – um sintético vocábulo da Língua Portuguesa a significar "indivíduo que chama a atenção por seus gastos luxuosos e ostentações; que procura ostentar riqueza exibindo-se com gastos excessivos; rude; ignorante" [4].
Não se pense que o trabalho de arregimentação de rastaqueras necessite anúncios ou convocações expressas. Não é necessário. Como comprova a fotografia, sempre haverá um senador livremente disposto a beijar a mão do imperador da vez. 
o senador Otávio Mangabeira (UDN-BA) beija a mão do presidente Eisenhower dos EUA,
em visita ao Congresso Constituinte brasileiro (1946)

Conceda-lhe uma distinção qualquer, ceda-lhe os fundos e os meios necessários, e o resto acontecerá por osmose... midiática.
?E quem haverá disposto a levar à reflexão de todos o agudo contraste entre as glamourosas vitórias de celulóide dos boinas verdes de um John Wayne ou de um Silvester Stallone, com as reais dificuldades dos boinas verdes dos generais Westmoreland ou Petraeus? E quem, suficientemente ousado, haverá para comentar que o casaco do Evo Morales ou o chapéu junino do Lula estão inseridos no mesmo contexto da saia (kilt) do príncipe Charles ou do perú (vivo!) de Ação de Graças ao lado do Bush?
Se tais houver, tão logo apareçam, serão desconstruídos. Rapidamente.
Em toda a América Latina

O jornal diário argentino LA NACION, desde sua fundação, em 1870, estampa em sua página de editoriais o lema “LA NACION será uma tribuna de doutrina”
Doutrina? Vá lá, então... Qual doutrina?
Por seu espantoso, porém compreensível, encaixe às teses de Albert Memmi [5], um trecho do editorial deste jornal, publicado no dia 10 de outubro de 2010 e relativo a uma análise da atual conjuntura argentina, fornece uma pista reveladora ao falar -com um certo quê de perplexidade, tristeza e solidão- “da prepotência, do triunfalismo absurdo, da adesão a fórmulas mágicas que levam, com descabida persistência, à indolência e à preguiça para com a cultura do trabalho; e ao estímulo da esperteza nativa e ao menor esforço... que multiplica o espírito de vadiagem...”[6]

Mas como é próprio à natureza das coisas -para o desgosto escatológico dos fundamentalistas e para a esperança eterna dos progressistas- “the times, they’re changing” e, hoje, uma vez mais, revoluções parecem estar ocorrendo no interior dos próprios impérios, sejam estes políticos ou comerciais.
Portanto, para encerrar este pequeno ensaio sobre a existência, ainda, na América Latina, de um último foco de repressão colonial à sua autonomia cultural, nada melhor do que as palavras de uma jornalista espanhola a respeito do movimento reacionário estadunidense Tea Party em sua tentativa de desestabilizar o governo democrático do presidente Obama. A saber:

A rebelião das elites
Irene Lozado
(excerto)
…sentem que lhes tomaram os velhos privilégios, o que é rigorosamente correto. A não discriminação e a partilha do poder cristalizaram-se na presença de um negro na Casa Branca, em casamentos gay ou em um G-20, onde brasileiros opinam sobre a economia mundial.
Querem reter, em alguma trincheira, uma distribuição de poder capaz de restaurar aquele mundo hierárquico e ordenado no qual se sentiam seguros de uma hegemonia que só disputavam com iguais.
Lá [nos EUA] como aqui [na Espanha], uma blogosfera histérica e certas redes de televisão estão desempenhando um papel fundamental na hora de legitimar a extrema direita. Como explicou Manuel Castells, na sociedade em rede global, como a nossa, os meios [de comunicação] ‘não são o Quarto Poder. São muito mais importantes [do que isso]: são o espaço onde se cria O Poder.’ As relações de poder que se criam serão, pois, definidas por pregadores tacanhos, que doutrinam ao invés de informar, difamam ou caricaturizam o adversário e optam por uma narrativa apocalíptica para satisfazer a uma audiência que prefere ver confirmados seus preconceitos a discutir suas opiniões.
[sobre figuras inexpressivas e caricaturais, porém passíveis de atrair uma grande audiência com gosto pelo bizarro e escandaloso, como foi o caso do pastor evangélico disposto a queimar exemplares do Alcorão] Desde o momento em que lhes outorgam visibilidade, seus delírios passam a estimular o de outros e, desse modo, cria-se um vazio na agenda dos partidos [políticos]. “[7]

Homero Mattos Jr.
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[1] “Les fautes..., des enfants, des serviteurs, des faibles, des indigents et des ignorants sont la faute des peres, des maîtres, des forts, des riches et des savants. La société est coupable de nes pas donner l’instruction... elle répond de la nuit qu’elle produit… Le coupable n’est pas celui qui y fait le péche, mais celui qui y a fait l’ombre.” Les Miserables p.50 vol. I Éditions Gallimard, 2009 Folio classique 3223, France


[2] Will Durant, The Story of Civilization vol. I ‘Our Oriental Heritage’ cap II ‘Economic Elements of Civilization’ nota pp. 18 e 19 The Easton Press, Norwalk, Connecticut 1992


[3] em Minha Formação, página 11 parág. 4 ed. Fundação Biblioteca Nacional, Departamento Nacional do Livro


[4] Dicionário Houaiss, pág. 2387


[5] Albert Memmi O retrato do colonizado precedido pelo retrato do colonizador pp. 70 a 82
3a.edição ed. Paz e Terra, São Paulo, SP 1989
“O fato sociológico é batizado biológico, ou melhor, metafísico. Pertence à essência do colonizado. [e assim] a relação torna-se uma categoria definitiva. "É o que é porque eles são o que são" e nem um nem outro jamais mudará. O racismo, elemento consubstancial, expressão do fato, um dos traços mais significativos, estabelece a discriminação fundamental entre o colonizador e o colonizado, funda sua imutabilidade. Somente o racismo permite colocar na eternidade uma relação histórica que começou em data certa. A existência do colonizador reclama e impõe uma imagem do colonizado. Álibis, sem os quais a conduta do colonizador, sua existência, pareceria escandalosa. (...) a preguiça... Nada poderia legitimar melhor o privilégio do colonizador que seu trabalho; nada poderia justificar melhor o desvalimento do colonizado que sua ociosidade. O retrato mítico do colonizado conterá então uma inacreditável preguiça. O do colonizador, o gosto virtuoso da ação. Subalimentação; baixos salários; futuro bloqueado; significação irrisória de seu papel social (...) a independência da acusação de quaisquer condições sociológicas e históricas, institui o colonizado como ser preguiçoso. A preguiça é constitutiva da essência do colonizado. Voltamos sempre ao racismo, que é bem uma substantificação, em proveito do acusador, de um traço real ou imaginário do acusado. Quando o colonizador acrescenta que o colonizado é "um retardado perverso", de "maus instintos", "ladrão", "um pouco sádico", legitima sua polícia e sua severidade. (...) inaptidão para o conforto, para a técnica, para o progresso, sua espantosa familiaridade com a miséria: ?porque se preocuparia o colonizador com aquilo que não inquieta de modo algum o interessado? O que é verdadeiramente o colonizado importa pouco para o colonizador. Longe de querer apreender o colonizado na sua realidade, preocupa-se em submetê-lo a essa indispensável transformação. (...) "não é isso", "não é aquilo". O colonizado jamais é considerado positivamente."


[6] LA NACION, pág, 32 Buenos Aires, domingo 10 de octubre de 2010
“La prepotência, el triunfalismo absurdo, que pretende convertir em victórias derrotas que deberian ser apabullantes pero para las que no hay ojos suficientes; la adición a formulaciones mágicas que impelem, em descabellada persistência, a cometer los mismos errores de siempre; el desaliento y la sorna, em fin, hacia la cultura del trabajo y el estímulo de la viveza criolla y del menor esfuerzo menguan la educación popular y multiplican el espíritu da vagância.”


[7] El PAÍS, domingo 17 de octubre de 2010 em ‘LA CUARTA PÁGINA’-OPINIÓN p.25
“La rebelión de las elites
Irene Lozano
…sienten que les han arrebatado sus viejos privilégios, lo cual es rigurosamente cierto. La no discriminación y el reparto del poder acaban cristalizando en la presencia de un negro en la Casa Blanca, una boda gay o ese G-20 donde los brasileños opinam sobre la economia mundial.
Quierem detener en alguna zanja el reparto de poder para restaurar aquel mundo jerárquico y ordenado en que se sentían seguros de su hegemonia y solo disputaban côn sus iguales.
Allí, como aquí, una histérica blogosfera y ciertas cadenas de televisión están desempeñando um papel fundamental a la hora de legitimar a la extrema derecha. Como ha explicado Manuel Castells, en la sociedad red global –la nuestra- los médios ‘no son el cuarto poder. Son mucho más importantes: son el espacio donde se crea el poder’.
Las relaciones de poder que se creen estarán, pues, moldeadas por los pequeños predicadores que adoctrinan en lugar de informar, difaman o caricaturizan al adversario y optan por una narrativa apocalíptica para satisfacer a esa audiência que prefiere confirmar sus prejuicios a contrastar suas opiniones.
Desde el momento en que le otorgan visibilidad, sus delírios estimulan los de otros y se abren hueco en la agenda de los partidos.”
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'pessoas de pouca importância'

habitantes de Canudos, BA 1897
 

“...os primeiros líderes republicanos do Brasil não cuidaram dos problemas humanos -não desenvolveram nenhum plano para a 'valorização’ do homem brasileiro.”[1]
Gilberto Freyre

“Os fidalgos e os eclesiásticos têm a arte de chamar de jacobino ou incrédulo a quem deseja que o mundo seja melhor do que está.”[2]
José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência do Brasil condenado, no final da vida, a ficar incomunicável na ilha de Paquetá.

“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se de modo autônomo e fracassei. Porém, minhas derrotas são minhas vitórias. Eu não gostaria de estar ao lado dos que me venceram.” Darcy Ribeiro



No Brasil, a exclusão social serviu como uma luva (de boxe) para turbinar o darwinismo próprio à dinâmica competitiva do ethos capitalista e, desse modo, sabotar o princípio de inclusão inerente a toda forma cooperativa de organização.
Ao deparar-se com os ‘complexos favelísticos’ situados dentro e no entorno de sua cidade, esteja certo: 1) o problema não é de hoje; 2) antes de ser econômico é moral e, portanto, 3) impõe uma profunda transformação ao nosso, brasileiro, jeito de ser.
No início do século XX as autoridades policiais do Rio de Janeiro designavam os cidadãos brasileiros pobres -migrantes e imigrantes, como “pessoas de pouca importância”[3]. Se você quiser conhecer melhor o principal núcleo social abrangido por esta expressão de uso corrente nos B.O’s da época (e de até há bem pouco tempo atrás) faça um exercício: imagine-se vivendo no Brasil do dia 12 de maio de 1888. E imagine, também, que você é um escravo...
Pois bem. Amanhã, dizem, finalmente você estará livre. Possivelmente você vai passar a noite acordado, ansioso ao pensar que, dentro de poucas horas, lhe será possível fazer o quê quiser com sua vida. Você não faz a menor idéia sobre como-é-que-vai-ser... mas... tudo bem. Não importa. Amanhã, de qualquer modo, você estará “livre”. É. Assim mesmo: com aspas. Sem asas. Mas isso você só irá perceber aos poucos. O dia 13 amanhece. E nada de mais acontece. Ao contrário. Acontece de menos. Em pé diante do varandão da casa-grande, você e seus companheiros escutam o senador/coronel dizer que de agora em diante não há mais escravos no Brasil, pois estão todos livres, que podem ir para onde quiserem, porque ele, o senador/coronel, não tem mais obrigação de cuidar de ninguém e, por falar nisso, o almoço de todas as manhãs, a começar por aquela, quem quiser comê-lo terá que pagar por ele, o almoço, a ele, o senador/coronel. Quem não puder pagar, não come. Ali. Na fazenda dele, senador. E coronel. Enquanto você e seus companheiros ficam olhando um para a cara do outro, o mais abusado de todos levanta o braço e pergunta se ninguém vai lhes dar uma força pra começar, tipo uma ajuda de custo ou qualquer coisa parecida...!?!... isso! exatamente! concordam todos. Vai não, diz o senador/coronel. Ninguém vai dar coisa alguma. Daqui pra frente será cada um por si e seja lá o que Deus quiser. Acabou a mamata! diz ele, o coronel. E senador. Bem... você, de duas uma: ou parte em direção à Capital -onde mora a redentora, a dona Isabel, ou pede para o senador/coronel deixar tudo como estava antes, pois, talvez seja melhor... voltar a ser escravo! A primeira opção, partir, não lhe trará problemas. Antigos. Só novos. Mas novidade mesmo você vai ouvir se optar pela segunda alternativa: voltar a trabalhar de graça em troca de comida. O senador/coronel não está mais interessado em escravos. Já contratou gente de outras terras de outro mar para trabalhar no seu lugar. Gente, diz o senador/coronel, muito, mas muito melhor do que você. Tanto assim que, com tais, ele já firmou contratos garantindo salário, moradia... enfim, aquela infrazinha para começar a vida. Ôsh !?! exclama contrariado aquele seu companheiro, o mais abusado. Por que não ofereceram as mesmas condições a vocês? Afinal, vocês conhecem não só o serviço, mas também o lugar e suas manhas. Então... por que?
Você ainda não sabe, mas desde a segunda metade deste século XIX, a política de colonização do Estado brasileiro está oficialmente orientada para a importação de mão de obra. Em voga, há uma crença na “superioridade do trabalhador branco, particularmente daquele que, além de branco, era de 'raça' diferente da dos colonizadores lusos, isto é, os nórdicos, os saxões, os louros” com os quais “todos os problemas brasileiros haveriam de estar resolvidos com a 'arianização' da massa de trabalho”.[4] Portanto, não houve interesse por parte do Estado em integrá-lo à sociedade. Não há um projeto. Não há uma proposta para tal, a partir daqueles aos quais caberia a responsabilidade de elaborá-la: as mesmas autoridades que lhe concederam a liberdade. Cuidam, sim, é de apontar seus defeitos e rir da sua “falta de civilidade”.
“Cansado de tentar achar uma resposta” e não desejando recomeçar a vida mais marginalizado do que já está, você opta por tentar a sorte dirigindo-se para perto das autoridades que o libertaram. No caminho em direção à Capital, se quiser, conserve seus traços africanos ou, se preferir, mescle-se com os outros (muitos) marginalizados que encontra pelo caminho: brancos pobres, índios, mestiços destes... Então, será assim, com feições e hábitos tipicamente brasileiros –e acelerando o tempo histórico de sua imaginação- que você vai chegar à capital de um Estado ainda meio-Império meio-República, ou seja, nem uma coisa nem outra. Uma sociedade administrada por mentalidades coloniais com modos imperiais salvaguardados por leis republicanas.
Então você que no começo da viagem “só queria era falar com o presidente pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer, bestificado com as luzes da cidade vai sentir que é mesmo diferente e que aquilo ali não é o seu lugar pois você não entende como a vida funciona discriminação por causa da sua classe e sua cor”, você vai chegar aos dias atuais pronto! Para “organizar a Rockonha e começar a plantação”[5]...
Talvez, ao término desta viagem, você se surpreenda ao saber que meio século antes da Abolição, o Patriarca de nossa Independência deixara Projetos para o Brasil onde, entre outras coisas, ponderava: “...é tempo, também, que vamos acabando gradualmente até os últimos vestígios da escravidão entre nós, para que venhamos a formar em poucas gerações uma nação homogênea, sem o que nunca seremos verdadeiramente livres. É da maior necessidade ir acabando tanta heterogeneidade física e civil; cuidemos pois desde já em combinar sabiamente tantos elementos discordes e contrários, e em amalgamar tantos metais diversos, para que saia um todo homogêneo e compacto, que não se esfarele ao pequeno toque de qualquer nova convulsão política.”[6] Certamente, ao término desta viagem, você não ficará surpreso com as palavras do professor Luís Mir (em Guerra CivilEstado e Trauma[7]) sobre as condições sociais do seu país... mais de um século após aquela manhã do dia 13. Na frente do varandão da casa grande. Do senador/coronel.
“As hierarquias culturais se co-reproduzem na pós-abolição com a economia mantendo o apartheid econômico. Empregadas domésticas são negras ou cafuzas; as babás, paramentadas e tratadas como mucamas; há elevadores de serviço para os servos e a proibição de circular nas áreas sociais dos proprietários. O muro étnico dominante cria bolsões étnicos nas periferias e encostas urbanas. A nação brasileira se forja pela indisposição de compartilhar. A nova balcanização do país -com condomínios e bairros cercados e defendidos pública e privadamente por forças policiais e paramilitares- está reordenando a ocupação dos territórios urbanos, criando bolsões e cinturões de segurança e isolamento para as minorias. Criam-se miniestados auto-suficientes, dissociados das cidades, das comunidades, da população. ‘No momento de transição de uma sociedade escravocrata para uma sociedade clássica liberal, o desafio era a gestão inteligente dos ressentimentos’ (cit. Ansart, 2000). Isso não foi feito e sequer tentado. Se se desumaniza o inimigo, é mais fácil, etnicamente, suspender as sanções morais contra a sua destruição. O ajuste tácito entre os chefes policiais e as elites étnicas sobre a ordem pública determina que ela seja restabelecida sem contrapartidas, sob um novo prisma, de luta exclusiva contra a criminalidade. A demanda social e econômica das massas segregadas é qualificada como o rompimento ou a tentativa de invalidação de uma ordem natural, social, moral, étnica. Surge o agrupamento por sua condição e com isso, o ressentimento... contra o Estado, Não há nada mais traumático para essas populações faveladas do que as rotineiras e brutais operações militarizadas de expulsão das áreas urbanas invadidas, sua integração e participação nas riquezas nacionais e na política, são aspectos que feririam de morte a balcanização. A neutralização da violência passou a ser considerada como um investimento de valor estratégico e militar, comercial e industrial e não como um problema social e político. A ânsia de segurança, própria da condição humana, culmina num individualismo desesperado. A classe média, perplexa e ameaçada, inclina-se cada vez mais às saídas militaristas. O conflito se inicia na disposição espacial dos participantes: cidades que se organizam para serem utilizadas somente por algumas parcelas da população. À medida que nossa sociedade se converte em fabricante de sonhos, a tensão entre o desejado e o real gera agressão. O Estado brasileiro administra um país cuja população está entre as mais pobres do mundo, mas ele mesmo está entre o terço mais rico dos Estados do mundo. Comparado aos países industrializados não é rico, mas no conjunto dos países em desenvolvimento lhe sobram recursos para combater drasticamente a miséria. A manutenção dos indivíduos num estado de mediocridade radical exige uma cultura de neutralização de qualquer crítica. Mantêm-se os indivíduos num grau idiotizado, no bojo de uma sociedade desigual, impregnada de uma ideologia do máximo rendimento. É um poder que mantém os indivíduos numa posição política e social passiva. A construção da coexistência pacífica só será admissível através de bases justas, com a reconciliação da sociedade em novas balizas sociais e econômicas, a reconciliação do Estado com a nação profunda e a resolução das condições que provocaram a guerra. A reconciliação deve ser tentada para desarmar a principal matriz do conflito: a desigualdade social. Este é o maior desafio da democracia brasileira: a pacificação da sociedade. Precisamos de um novo padrão de humanismo. Neutralização das dessemelhanças sociais é civilizar. Isso só acontecerá com o fim da balcanização.”[8]
Homero Mattos Jr.
http://www.homerotextos.blogspot.com/
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[1] ver Freyre, Gilberto 'Interpretação do Brasil' p. 209 cap. 'Condições étnicas e sociais do Brasil Moderno' col. Retratos do Brasil, Companhia das Letras, São Paulo,SP 2001


[2] ver Andrada e Silva, José Bonifácio ‘Projetos para o Brasil’ p. 106 ed. Companhia das Letras/Publifolha, col. Brasil 500, São Paulo, SP 2000


[3] ver Chalhoub, Sidney ‘Trabalho, Lar e Botequim – O Cotidiano dos Trabalhadores no Rio de Janeiro da Belle Époque’ p. 201 Ed. Brasiliense, São Paulo, SP 1986


[4] ver Sodré, Nelson Werneck ‘Formação Histórica do Brasil’ p.250 12a. edição Ed. Bertrand Brasil Rio de Janeiro, RJ 1987


[5] ouvir Legião Urbana em ‘Faroeste Caboclo’ de Renato Russo
http://www.4shared.com/file/16592526/d4ca89c4/07_-_faroeste_caboclo.html


[6] ver Andrada e Silva, José Bonifácio op. cit. p. 24/25


[7] Geração Editorial São Paulo, SP 2004


[8] Mir, Luís op. cit excerto de conteúdos, respectivamente, das: p. 105 p.72 p.79 p.101 p.102 p.127 p.131 p. 146 p. 147 p. 163 p. 164 p 167 p. 179 p. 307 p. 299 p. 326 p. 328 p.20 e p. 332
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Segunda-feira, Dezembro 20, 2010

As pedras e os 'prínspes' do Reino (do sangue do vai-e-volta) PARTE 1



1928 Macunaíma, em Macunaíma -o herói sem nenhum caráter, Mário de Andrade.
“ ‘- Mãe, quem que leva nossa casa pra outra banda do rio lá no teso, quem leva? Fecha os olhos um bocadinho, velha, e pergunta assim.’ Mas a mãe, ao invés de sensibilizar-se com os argumentos do filho teve uma raiva danada e abandonou Macunaíma no mato, dizendo: ‘-Agora vossa mãe vai embora. Tu ficas perdido no coberto e podes crescer mais não.’ E, assim dizendo, desapareceu.”

1958 D. Dinis Quaderna em A Pedra do Reino -e o príncipe do sangue-do-vai-e-volta, Ariano Suassuna
“...o que mais me impressionava era a morte de um menino degolado por seu próprio pai, por ordem de meu bisavô. Na hora do sacrifício, o inocente, chorando, reprochava docemente o degolador, dizendo, num queixume: ‘-Meu pai, você não dizia que me queria tanto bem?’”

1968 Paulinho da Viola em entrevista publicada no suplemento Mais! Folha de São Paulo p. 12 domingo 25 de agosto de 2002
“… aquele era um momento muito difícil para todos nós. Nunca soube se foi um sonho ou só um momento. Mas essa coisa ficou. Era tão forte que fecho os olhos, hoje, e sou capaz de visualizar a cena: eu entrava num ônibus, em frente ao Monumento aos Pracinhas e o ônibus estava cheio. Aí, eu olhava e tinha uma pessoa lá na frente, que às vezes era uma mulher, às vezes era um homem. Eu queria falar com aquela pessoa e não conseguia. A impressão que me dava, também, era a de que o ônibus tinha andado, mas continuava no mesmo lugar. Lembro que essa pessoa saía do ônibus e eu queria falar e não conseguia. Ela me dava adeus e eu não conseguia falar.”


Tiririca e os brasileiros do Nordeste...
Primeiro, Tiririca.
O palhaço... Interessante persona essa. Repare: se puder divertir o outro com minha tolice, talvez possa assegurar sua tolerância para com minha parvoíce. Porém, minha sombra será um trickster -o safado, a transformar em aparente deboche blasé um cinismo visceral por uma ordem social percebida como iníqua.
O trickster é uma categoria arquetípica a sintetizar os múltiplos aspectos do tipo psicológico representado por figuras extremamente criativas, porém, dotadas de um caráter malandro orientado para ganhar a vida vitimando o próximo. E encerrá-la, quase sempre, como vítima de si mesmo.
Tricksters são, entre tantos, Pedro Malazarte; o saci Pererê; o Máskara e... Macunaíma.
Transcorridos os tempos de Colônia, Império e Velha República e ainda sem solução as mazelas secularmente acumuladas da vida social brasileira, às vésperas da Revolução de 30 a consciência brasileira , na pessoa de Mário de Andrade, mostrou-se apta para processar e ordenar as visões fantásticas reveladas em Macunaíma (1928).
Para desenvolver a crítica social que, essencialmente, é Macunaíma, seu autor serviu-se de imagens provenientes das lendas e mitos sul americanos descritos na obra Do Roraima ao Orinoco do etnógrafo e naturalista alemão Theodor Koch-Grünberg, segundo o qual a palavra macunaíma (parece) deriva de maku=mau e ima=grande... Neste aspecto terrível, escolhido não por acaso para identificar um personagem nascido no Brasil profundo, talvez haja uma pista para entender as causas da alarmante criminalidade em expansão... do Rio Grande ao Rio da Prata.
Para Macunaíma pai e mãe -duas presenças fundamentais na construção de uma personalidade equilibrada- são duas grandes, enormes abstrações. Por isso sua história, antes de ser cômica, é trágica. Do começo ao fim.
Em termos da psicologia junguiana, os conteúdos revelados em Macunaíma podem ser vistos como uma tentativa do inconsciente coletivo brasileiro de impor à nossa consciência civil uma reflexão sobre as funestas conseqüências de um longo processo de negação, de não-reconhecimento, a transformar doçura original em assombro impotente, face a um mundo implacavelmente mesquinho e brutal em sua insaciável rapacidade.
À inocência desamparada sobrevêm, primeiro, o sentimento de inferioridade e, em seguida, um desejo desabrido de tornar-se superiormente importante e portanto, de modo grotesco, reconhecido. Não por si mesmo, mas pelo outro. Por bem ou por mal...
Apesar da qualidade espantosamente perversa e sanguinolenta das imagens onírico-mitológicas presentes nas páginas de Macunaíma, a história -à semelhança do que (ainda) ocorre no espaço físico e social brasileiro- se desenvolve em meio a paisagens e seres amistosos, conselheiros e cooperativos. Tais, todavia, são invariavelmente ignorados pelo protagonista principal. Faz sentido.
A história de Macunaíma, na verdade, relata um processo inconsciente de formação da identidade.
Não por outro motivo, o argumento central da narrativa é a procura por uma pedra, um dos símbolos universais da identidade pessoal. No caso de Macunaíma, mais precisamente, trata-se do muiraquitã -o pequeno amuleto de formato fálico que as índias Icamiabas (i.e=mulheres sem marido) ofereciam aos índios Guacaris, com os quais se acasalavam apenas uma vez por ano, durante a festa da Lua.
Macunaíma se casa com Ci, a rainha das Icamiabas. Ambos tem um filho que, ainda bebê, morre ao beber leite envenenado, após a cobra-preta picar o seio da mãe. Abatida, Ci, subindo por um cipó, resolve ir para o céu. Antes, porém, oferece a Macunaíma um muiraquitã.
Pouco tempo depois, desolado, ao visitar o túmulo do filho, Macunaíma vê nascer sobre o lugar onde fora enterrado o corpo uma plantinha: o guaraná.
O guaraná, sabemos todos, é um revigorante, um energético...
Mas, segundo seu criador: “Macunaíma é o que ainda não pode ser ”.
Ao final da Velha República, “antes de tudo ”, Macunaína ainda não é “um forte”. Não sabe o que fazer com o muiraquitã e, talvez por isso mesmo, vive a perdê-lo constantemente.
Porém, à pedra para qual o “herói sem caráter ” do Brasil no final dos anos 20 não foi capaz de encontrar um sentido, saberá (e muuuuuito!) dar-lhe um D. Dinis Quaderna, o personagem central da “grande epopéia da raça ” escrita pelo paraibano Ariano Suassuna: A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai e Volta.
Mas isso se deu depois.
Ou melhor: depois e durante. O suicídio de Vargas; a tentativa de impedir Juscelino; a deposição de João Goulart; o golpe de 64...

Homero Mattos Jr.

As pedras e os 'prínspes' do Reino (do sangue do vai-e-volta) PARTE 2



Inglaterra, junho de 1949
“No final da tarde, Chateaubriand, Gueiros e o embaixador brasileiro Moniz de Aragão tomaram um carro e foram até a casa de campo de Churchill (Winston), que queria conhecer o brasileiro que comprara seu quadro. O jornalista (Chateaubriand) levava nas mãos uma valise de couro e, depois de um chá e alguns minutos de conversa, anunciou ao ex-premiê: ia sagrá-lo Cavaleiro da Ordem do Jagunço, que acabara de criar especialmente para que o primeiro condecorado fosse o líder britânico. O líder conservador (Churchill) pareceu achar graça quando Chateaubriand pediu que ele se apoiasse sobre um dos joelhos para ser condecorado. O jornalista tirou da malinha um chapéu de cangaceiro, que colocou sobre a cabeça do agraciado, e cobriu seus ombros com um mal-cheiroso gibão de vaqueiro nordestino em couro cru. Pediu que Gueiros colocasse sobre o ombro de Churchill um punhal paraibano de cabo de osso e passou a pronunciar em português, com toda solenidade:
- Winston Churchill: em nome de Chico Campos, do suave sertão das Gerais, grão-mestre da Ordem, e de Antônio Balbino, senhor do Rio Grande, no sertão duro da Bahia, eu vos armo comendador da mais valorosa jerarquia do Nordeste do Brasil, a Ordem do Jagunço.”[1]



Depois de Tiririca, os brasileiros do Nordeste...
Ao final dos anos 50, em meio à Guerra Fria e a um Brasil orgulhoso de si e em vésperas de praticar uma política externa independente, Ariano Suassuna em sua obra O Romance d'A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, faz um juiz Corregedor interrogar a um acusado: “-O senhor é extremista de Esquerda, de Direita ou de Centro? ” a o quê, o acusado responde: “-De nenhum dos três... Sou Monarquista de Esquerda! ”
O acusado é Dom Pedro Dinis Quaderna, porta-voz do Povo da Vila de Estaca Zero, personagem central do romance.
Mais do que um posicionamento partidário, a resposta de D. Dinis revela a retomada e maturidade da consciência que em Macunaíma nem sequer é nacional.[2]
Observe-se que Macunaíma é uma obra do final da República Velha, período representativo de um Estado omisso perante a causa pública, mas prestimoso em face dos interesses particulares de seus amesquinhados dirigentes. Outra, porém, é a realidade do período desenvolvimentista pós-Getúlio, durante o qual foi gestado o conteúdo de O Romance d’A Pedra do Reino.
Conhecendo a história de Macunaíma, vejamos a de D. Dinis (nas palavras [3] de seu criador).
[ O sonho de Dom Dinis é fazer do Brasil um Império de Canudos, um reino de república popular, com a justiça e a verdade da Esquerda, porém, com beleza fidalga. Mas, Dom Dinis é criticado por dois intelectuais: um filósofo negro montado em uma égua vermelha chamada Coluna e um poeta branco montado em um célebre corcel negro chamado Temerário. Ambos acham que Dom Dinis tornou-se um safado galhofeiro e, portanto, incapaz de fazer qualquer coisa que se aproveite porque, em contato com folhetos e romances de safadeza, contraiu três defeitos gravíssimos: o desvio heróico, o desvio obsceno e a galhofa demoníaca.
Uma dúvida atroz atormenta o poeta branco: como ser Fidalgo e Cruzado numa terra dessas, que nem ao menos possui um padroeiro belicoso ao qual invocar! Os Cruzados ingleses podem gritar por São Jorge, os espanhóis por São Tiago, os franceses por São Luís e nós temos que chamar por Nossa Senhora da Conceição! Mas -observa D. Dinis- Nossa Senhora da Conceição é boa para casos de guerra, pois na Batalha dos Guararapes a situação estava ruim para os Brasileiros e então ela apareceu e os holandeses perderam!
Dom Dinis possui elevada auto-estima porque, ao passo que o poeta branco é somente godo/ibérico e o filósofo é negro/tapuia, ele é:
árabe/godo/negro/judeu/malgaxe/suevo/berbere/fenício/latino/ibérico/cartaginês/
troiano/cario/tapuia...
Por causa das dificuldades que passou em sua atribulada existência, D. Dinis tem muito contato com o Povo, os Cangaceiros, os Vaqueiros, as Mulheres-Damas, os Cantadores e etc, enquanto o poeta e o filósofo, apesar de viverem falando e filosofando sobre o Povo, vivem fechados entre o mofo das suas respectivas casas e as teias-de-aranha da Biblioteca... por isso eram perdidos na grandeza de suas idéias e seus sonhos. Muito distraídos para as ciladas da vida prática, cada um era radical por um lado só. Juntando as opiniões azuis de um com as vermelhas do outro, D. Dinis poderia realizar a receita. Então, na tentativa de conciliar diferenças e manter a união, propõe ao poeta e ao filósofo que os três, juntos, fundem uma Academia com sessões de três tipos: 1) as de gabinete, destinadas a discutir Literatura fidalga, fechada, pura, individual, poética e sonhosa; 2) as a pé, onde, com os pés no chão, os três se libertariam do mofo da Literatura burguesa decadente, ligando-se à realidade, à análise e à crítica dos males sociais. Tudo isso a pé. Como o povo faminto das estradas... As sessões do tipo 3), a cavalo, seriam destinadas a discutir os amores, as cavalarias, os cangaços e as quengadas dos folhetos.
D. Dinis pretende conciliar as viagens filosóficas de um com as demandas poéticas do outro, dando como resultado romances interessantes, com heroísmos, safadezas, batalhas, castelos amorosos e perigosos, amores legendários, gargalhadas, putarias e outras coisas divertidas e boas de ler. Se é para contar a história só com os sonhos do estilo rapão-ranhoso da Direita, ou somente com a exatidão mesquinha do estilo raso da Esquerda, não vai, de jeito nenhum! “Eu só sei contar as coisas no meu estilo... dos Monarquistas da Esquerda! ” esclarece D. Dinis, a quem preocupa o fato de ainda existir na Vila de Estaca Zero um terceiro chefe extremista: O Comendador... arrendatário do Açougue Público, dono do moinho, da torrefação, da padaria e de quase todas as vendas. Raivosamente adversário da Direita e da Esquerda, O Comendador atua, extremadamente, pelo Centro... opondo-se a qualquer medida.
Todos são unânimes contra os Burgueses: o filósofo, por serem brancos e ricos; o poeta, por não serem Fidalgos; e Dom Dinis, por nunca montarem a cavalo não andarem com bandeiras e, tampouco, se meterem em Cavalhadas, vaquejadas e outras cavalarias. Péssimos, como personagens de Epopéia! Por esse motivo caem todos diante das astúcias e cortesias de um certo Doutor, homem gentil e cheio de habilidades no que se refere a astúcias, chaves e caminhos, ardis e defesas novas... Coisas de valor inestimável para a vida prática!
Ao final da narrativa, distribuindo cartas de nobreza e trazendo amarrada ao pescoço as cores do Papa e no indicador da mão direita uma pedra-de-grau de Licenciado em Direito, o Doutor assegura a Dom Dinis um título de nobreza e ao poeta um título de Comendador. O filósofo negro opta pelo título de Visconde... O poeta protesta alegando que o filósofo é negro e comunista, porém, temeroso de desmoralizar a Ordem que o haveria de agraciar, não se atreve mais a criticar coisa alguma. O poeta e o filósofo... “lentos em todos os momentos da ação, eram rapidíssimos nas fugas”, observa Dom Dinis, a partir da solidão do cárcere em que se encontra e de onde narra sua história.]
As últimas palavras d’O Romance da Pedra do Reino são, também, as últimas de D. Dinis, lembrando o momento em que solicitara uma pequena mudança nos versos da canção entoada pelo povo no momento de sua coroação:
“... eu ordenara que pusessem o brasileiríssimo e sertanejo gavião tourano.... servia muito melhor de insígnia para minha realeza do que aquele bestíssimo gavião estrangeiro que é a águia. Na essência... era esse o enigma.”
Tal “enigma” será o assunto a seguir e a finalizar esta série de três ensaios.

Homero Mattos Jr.
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[1] ver Morais, Fernando Chatô - o rei do Brasil p. 492 e foto p. 493 ed. Companhia Das Letras São Paulo,SP 1994
[2] Já em poder do muiraquitã e retornando às margens do rio Uraricoera, Macunaíma “deu uma chegadinha até a boca do rio Negro pra buscar a consciência deixada na ilha de Marapatá. Jacaré achou? nem ele. Então o herói pegou na consciência dum hispano-americano, botou na cabeça e se deu bem da mesma forma.”
Andrade, Mário 'Macunaíma' p. 140 31a. edição ed. Livraria Garnier Belo Horizonte, MG 2000
[3] N.A – De modo a tornar possível, de modo coerente, neste ensaio, um resumo compacto e parcial das 750 páginas de A Pedra do Reino... (5a edição José Olympio Editora Sp, SP 2004), somente alguns tempos verbais encontram-se alterados em relação à escrita, incomparável, de Ariano Suassuna, cujos termos originais e fluxo narrativo foram mantidos integralmente.

As pedras e os 'prínspes' do Reino (do sangue do vai-e-volta) CONCLUSÃO


“ Há na alma um processo que tende para um fim. Independentemente das condições exteriores ” C.G. Jung[1]

“... ande com cuidado, porque todos esses assuntos são muitos misteriosos. Não pense que o senhor, por ser formado, resolve todos eles assim, com uma penada só, não... Até compreendo que o senhor fica com vergonha de acreditar em certas coisas. Mas eu, que sou ignaro, tenho o direito de não ter vergonha de acreditar na verdade. ...o Prinspe... Cada vez que ele aparece, adota um nome diferente, de acordo com as necessidades e perigos da Guerra do Reino!”Dom Dinis[2]

“- João Goulart... O que havia contra ele... Achávamos que o seu governo iria ser faccioso, voltado inteiramente para a classe trabalhadora, em detrimento do desenvolvimento do país... o IPES, congregando o interesse da classe empresarial, difundia a idéia de um movimento contra o Jango. Não tínhamos uma proposta de governo. Achávamos que esse problema iria ser resolvido depois. Em primeiro lugar, tínhamos de derrubar o Jango. Ernesto Geisel[3]



 
Levando-se em conta o desenrolar da História, talvez o grande enigma da vida do padre estadunidense Patrick Payton -o idealizador das marchas para “mobilizar a família católica contra o perigo do comunismo”- tenha sido saber se, de fato, Deus atendeu à convocação das senhoras da classe média alta paulistana e marchou pelo centro de São Paulo “em desagravo ao Santo Rosário”, ao lado delas e dos funcionários que a iniciativa privada dispensara para tal no final da tarde de 19 de março de 1964.
Porém, quanto ao interesse comum a unir pescadores de alma e pescadores de peixe propriamente dito, não há mistério: poder.
E é na difusa zona fronteiriça entre o zelo pelo refinamento do espírito e o apego ao conservadorismo político que costumam ser fechados os, embora costumeiros, paradoxais acordos entre aqueles que supostamente a nada deveriam se apegar e aqueles que declaradamente a nada desejam renunciar.
Que tais consigam compatibilizar seus interesses não chega a impressionar. Preocupante é o método.
Satanizar um antagonista de modo a justificar-lhe o merecido final que lhe haverá de ser imposto por um heróico protagonista, não é apenas o milenar e banal recurso dramático persa-semita que consagrou Hollywood e talvez destrua o mundo. Ser do Bem e combater o Mal é a lógica duelista (isto é, a dialética) necessária aos ilusionistas da conquista e preservação do status quo per seculum seculum seculorum.
Mas, felizmente, não é possível apoderar-se de um espírito cuja mudança constante é a própria natureza da sua eternidade.
No dia 1º de abril de 1964, quando o jornal O Estado de São Paulo foi para as bancas com a manchete “Democratas dominam toda a Nação! ”, Ariano Suassuna encontrava-se a meio-caminho de concluir O Romance d'A Pedra do Reino ...obra que iniciara seis anos antes e haveria de concluir em 1971.
Se Macunaíma, escrito em seis dias, nos permite apreciar o estágio da consciência brasileira pré-Getúlio, a Pedra do Reino, composto ao longo de treze anos, nos mostra o estado dessa mesma consciência pós-Getúlio. Talvez por isso, comparando-se estas duas obras repletas de conteúdo onírico relacionado ao desenvolvimento da identidade brasileira, é notável o fato de que ao atravessar “o reino encantado da Pedra Bonita em Pernambuco” o herói de Mário de Andrade, Macunaíma -sempre ativo em todos os lugares por onde passa à procura do muiraquitã (e são todos os recantos do Brasil), não faz absolutamente nada; ao passo que Pedra Bonita-PE é, precisamente, o cenário escolhido por Ariano Suassuna para nos contar a respeito do “Reino junto a uma Pedra, dentro da qual, prisioneiro e encantado, está El-Rei Dom Sebastião”...
Poucas figuras representam tão bem a questão da identidade nacional como Dom Sebastião.
os fatos
O grande temor de Portugal sempre foi a possibilidade de perder sua soberania para a Espanha. Por isso, era vital para o Estado português que seus reis pudessem deixar descendência apta a suceder-lhes no trono. Não foi este, entretanto, o caso de D. João III (talvez o melhor e mais capaz de todos os reis de Portugal) cujos filhos a ele não sobreviveram. Razão pela qual ao nascer (finalmente!) o neto de D. João III recebeu o cognome de O Desejado.
Mas, incumbidos de educar o futuro herdeiro do trono, os jesuítas acabaram por criar um exaltado fanático religioso que acreditava ser uma espécie de “capitão de Cristo” destinado a levar adiante a idéia (já fora de moda na época) de derrotar os árabes que, de há muito, haviam sido expulsos da Península Ibérica e confinados na África do Norte.
Determinado, porém, cinco anos depois de ter sido derrotado pelos árabes, D. Sebastião uma vez mais encontrou alento para seus propósitos no pedido de auxílio feito por um líder muçulmano deposto em meio a uma briga familiar. E assim, retornando ao Marrocos à frente de um exército misto de portugueses e mercenários, foi esmagado pelos adversários e desapareceu no meio da batalha. Em 1578.
Dois anos depois o trono português e todo seu império passaram às mãos da Espanha.
os mitos
Se Elvis (1935-1977) está vivo, D. Sebastião (1544-1578) também está.
O sebastianismo, a crença no retorno de D. Sebastião, é o eixo da narrativa de O Romance da Pedra do Reino. E o mito em torno do qual gravita o sebastianismo é o da salvação dos injustiçados. Tal qual representado no mito grego de Teseu, aquele, o do Labirinto.
... e a falha-trágica de Teseu foi (é )...
Após ter liquidado o Minotauro, Teseu despreza o amor de Ariadne - sem a qual sua tarefa teria sido impossível- e a partir desta atitude de indiferença inicia-se para o herói, literalmente, um inferno. Depois de permanecer no Hades, Teseu retorna a Atenas para encontrá-la em poder dos “nobres, irritados com as reformas” democráticas que ele havia realizado. Desgostoso, Teseu isola-se em uma ilha. Certo dia, o rei local “temendo que Teseu reivindicasse a posse da ilha” convida o herói para avistar a paisagem do alto de um penhasco à beira-mar e, no momento oportuno, o empurra pelas costas precipício abaixo. O túmulo de Teseu, que “em vida fora o campeão da democracia, o refúgio e o baluarte dos injustiçados” se tornará, com o apoio da mídia local, “abrigo inviolável dos escravos fugitivos e dos oprimidos”.[4]
A incorporação da figura de D. Sebastião em O Romance da Pedra do Reino é um contraponto de resistência à fraqueza e desesperança de Macunaíma, cuja história encerra-se nos seguintes termos: “Não havia mais ninguém lá. Os filhos dela se acabaram de um em um. Não havia mais ninguém lá. Um silêncio imenso dormia à beira do rio Uraricoera. Ninguém jamais não podia saber tanta história bonita e a fala da tribo acabada. Um silêncio imenso dormia à beira do rio Uraricoera. ... A tribo se acabara, a família virara sombras, a maloca ruíra minada pelas saúvas e Macunaíma subira pro céu. ...Tem mais não.”[5]
À incapacidade do personagem de Mário de Andrade em encontrar um significado e um sentido para a pedra-amuleto que ganhara da mulher amada, compare-se a garra e determinação expressas nas palavras do herói da Vila de Estaca Zero: “Havia um grande País de nação mouro-cruzada, e havia as Pedras do Reino. O Rei tinha duas pedras na Coroa imperial: perdeu uma e não achou mais outra que fosse igual. Mas vai procurar de novo: e empenha seu sangue o Povo, que o Tesouro é colossal!”[6]
Este é o enigma a que se refere D. Dinis/Ariano Suassuna ao final de sua história: o contínuo ressurgir de avatares da alma brasileira. Que boa parte destes tenham origem no Nordeste talvez seja apenas uma questão da sadia imunidade cultural a fortalecer-lhes os ânimos.
É, pois, na forma de uma cantiga regional típica posta na voz de uma personificação da História (“a Velha do Badalo”) que o autor da Pedra do Reino nos remete a fatos posteriores, em muito, à própria obra e às funestas conseqüências das estripulias do padre Payton e suas prestimosas senhoras (e respectivos maridos).
“Nosso rei foi se perder nas terras do Malpassar.
Deitam sortes à Ventura Quem o havia de buscar.
O Cavaleiro escolhido não se cansa de chorar:
vai andando, vai andando, sem nunca desanimar,
até que encontrou um Mouro num Areal, a velar.
-Por Deus te peço, bom Mouro, me digas, sem me enganar
Cavaleiro de armas brancas se o viste passar.
-Esse Cavaleiro, amigo, morto está, neste Pragal,
com as pernas dentro d’água e o corpo no Areal.
Mas é engano do Mouro, nós vamos nos aliar:
o nosso rei encantou-se nas terras do Malpassar
e, um dia, no seu Cavalo, nosso Rei a de voltar! ”[7]
A um vir-a-ser é possível retardar, mas não impedir sua realização.

Homero Mattos Jr.
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[1] ver Jung, C.G. Psicologia e Alquimia, Obras Completas vol. XII pp.19/20/28/45
ed. Vozes Petrópolis, Rio de Janeiro 1991

[2] ver Suassuna, Ariano A Pedra do Reino e príncipe do sangue do vai-e-volta pp 157; 619; 698; 701 e 704
5a edição José Olympio Editora Sp, SP 2004

[3] ver D’Araujo, Maria Celina; Castro, Celso Ernesto GEISEL pp.141/150/162 e 164
5a edição Fundação Getúlio Vargas editora São Paulo, SP 1998

[4] ver Brandão, Junito de Souza Mitologia Grega vol. III pp.149 a 174
ed. Vozes Petrópolis, RJ 1987

[5] ver Andrade, Mário Macunaíma 31a. edição
ed. Livraria Garnier, Belo Horizonte, MG 2000
A prenunciar o desalento final de Macunaíma, é significativa, também, a seguinte passagem: “[por] um momento pensou mesmo em morar na cidade da Pedra com o enérgico Delmiro Gouveia, porém lhe faltou ânimo. Pra viver lá assim como tinha vivido era impossível (...) pra parar na cidade do Delmiro (...) carecia de ter um sentido. E ele não tinha coragem pra uma organização.”

Delmiro Gouveia, assim como o Barão de Mauá ou o relativamente contemporâneo engenheiro Gurgel, é um exemplo concreto de tentativas abortadas de expressão da identidade brasileira.

[6] ver Suassuna, Ariano op.cit p. 322

[7] ver Suassuna, Ariano op.cit p. 691


















Quem sou eu

Minha foto
Natural de Sp, SP, começei a trabalhar aos 16 anos como office-boy, em 1970. Em 1976, depois de passar no vestibular para o curso de História na USP, decidi cursar Geografia. Seis anos mais tarde, graduei-me em Marketing na ESPM. Em 1983, cursando o terceiro semestre do curso de pós-graduação em Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, recebi uma proposta irrecusável para trabalhar em Salvador, BA, onde consegui economizar o suficiente para dedicar-me ao estudo diletante de História, Psicologia e Religiões. Desta dedicação resultam, respectivamente, os conteúdos publicados em www.passalidadesatuais.blogspot.com ; www.homeromattosjr.blogspot.com (inclui, também, textos de autores diversos) e www.allisonlyone.blogspot.com Atualmente, além de escrever ensaios e contos marcados sobretudo por uma crítica à realidade social brasileira (ver www.homerotextos.blogspot.com) ocupo-me em -a partir do revolucionário conceito de negócio-social idealizado pelo professor, economista e Nobel da Paz 2006 Muhammad Yunus- concretizar a Unidade de Excelência Educativa (ver www.uniexceledu.blogspot.com)