...e seus desastres sociais
Homero Mattos Jr.
No Brasil, de geologia consolidada não há graves abalos, cataclismas ou convulsões tectônicas nem vulcânicas. Também, não se encontra o Brasil sujeito a maremotos, tsunamis, monções arrasadoras e outros grandes aguaceiros afins. Nossas grandes metrópoles inundam no período das chuvas de verão. Mas essa é outra e recentíssima história, onde a Natureza apenas reage.
Nossos desastres, de longuíssima data, são sociais.
E não se trata de, aqui, recontar aquela famosa piadinha de viés colonizador, na qual Deus -questionado por alguns se, por acaso, não teria sido grande demais o número de benesses naturais com as quais houvera contemplado o Brasil- responde: "-Vocês vão ver o povo que eu vou colocar nesse lugar." (E os rastaqueras morrem de rir). Trata-se de clamar por um fim, um basta! no processo conhecido mundialmente como 'brazilianization' e que consiste em elevadas taxas de crescimento econômico acompanhadas por aumentos exponenciais dos níveis de desigualdade na distribuição de... tudo!
O nível insuportável da violência e criminalidade urbana no Brasil é fruto de... repare: se você é, digamos, um puritano inglês do século XVII decidido a sair com a família de seu país de origem em busca de outro lugar para reconstruir a vida, sua disposição psíquica, moral e filosófica é completamente diferente daquelas encontradas em seu contemporâneo, por exemplo, digamos um português aventureiro, disposto a arrancar o que puder de uma terra para qual pouco está se lixando, uma vez que seu interesse é voltar -o mais rápido possível e com o bolso o mais cheio cabível - para sua terra natal, lá, onde estão seus mais elevados afetos e aspirações morais. Pois é. Como diz Roberto Gambini, entre um quaker com uma enxada e a familia, e um bandeirante com uma escopeta e uma licença para matar, há uma enorme diferença. Ou, dois tipos de Justiça, acrescento eu.
Mas nossos desastres são reversíveis.
A palavra 'favela' designa uma planta da região de Canudos, no sertão da Bahia.
Depois que (as autoridades) massacraram os habitantes do lugar (e precisaram fazer quatro tentativas para realizar a 'façanha'), os soldados que retornaram foram desmobilizados e... obrigado, benção e tchau! tal qual aos escravos ocorreu após a Abolição, foram deixados à míngua, na base do cada-um-por-si. Com o início das obras de reurbanização do Rio de Janeiro (1910), a maior parte destes soldados começou a se instalar com suas famílias, nos morros, em locais denominados à lembrança da miséria que haviam conhecido em Canudos.
E, continue reparando, é das favelas que provém parte considerável das (talvez as maiores) conquistas culturais e desportivas pelas quais o Brasil conseguiu, e ainda consegue, gerar alguma simpatia internacional.
Imaginemos, então: quanto mais poderia realizar o Brasil se ao povo das favelas (i.e. 'Canudos') fossem concedidos os mesmos incentivos, meios e condições favoráveis que até agora só lhe é possível desfrutar na música e no esporte?
Por ‘povo das favelas’ quero referir-me aos descendentes do menino abaixo retratado:
“... menor de nove anos, figurinha entroncada de atleta em embrião, face acobreada e olhos escuríssimos e vivos, surpreendeu-nos pelo desembaraço e ardileza precoce. Respondia entre baforadas fartas de fumo de um cigarro, que sugava com a bonomia satisfeita de velho viciado. E as informações caíam, a fio –quase todas falsas, denunciando astúcias de tratante consumado. Os inquiridores registravam-nas religiosamente. Falava uma criança. Num dado momento, porém, ao entrar um soldado segurando um [rifle] Comblain, a criança interrompeu a fala ininterrupta. Observou, convicto, entre o espanto geral, que ‘a Comblé’ não prestava. Era uma arma à-toa, ‘xixilada’: fazia um ‘zoadão danado’, mas não tinha força. Tomou-a; manejou-a com perícia de soldado pronto; e confessou, ao cabo, que preferia a ‘Manuliche’ (Mannlicher), uma carabina ‘de talento’. Deram-lhe, então, uma Mannlicher. Desarticulou-lhe agilmente os fechos, como se fosse aquilo um brinquedo infantil predileto. Perguntaram-lhe se havia atirado com ela em Canudos. Teve um sorriso de superioridade adorável: ‘-E por que não? Pois se havia tribuzana velha!... Haverá de levar pancada, como boi acuado, e ficar quarando à toa, quando a cabrada fechava o samba desautorizando os praças?!’
Aquela criança era, de certo, uma deformidade estupenda. E um ensinamento. Repontava, bandido feito, à tona da luta, tendo sobre os ombros pequeninos um legado formidável de erros. Nove anos de vida em que se adensavam três séculos de barbárie.” ...
Euclides da Cunha 1899, em ‘Os Sertões’ pp 310/311

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