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Quarta-feira, Maio 09, 2012

englispañorguês - a língua panamericana

arte: HMjr.

trecho do conto Pollito Chicken de Ana Lydia Vega
publicado na pág. 9 do caderno MAIS! Folha de São Paulo
domingo 20 de maio de 2001.

Al llegar, se sentió all of a sudden como un frankfurter girando dócilmente en un horno de cristal. Le faltó aire y tuvo que desperately hold on a la imagen del breathtaking poster para no echar a correr hacia el avión. La visión de aquella vociferante crowd disfrazada de colores aullantes y coronada por kilómetros de hair rollers la obligó a preguntarse si no era preferible coger un bus o algo por el estilo y refugiarse en los loving arms de su Grandma en el countryside de Lares. Pero on a second thought se dijo que ya había hecho reservations en el Conquistador y que Grandma bastante bitchy que había sido after all con ella y Mother diez años ago. Por eso Dad nunca había querido ? además de que Grandma no podia verlo ni en pintura porque tenía el pelo kinky ? casarse con Mother, por no cargar con la cruz de Grandma, siempre enferma con headaches y espasmos y athlete's foot y rheumatic fever y golondrinos all over y mil other dolamas. Por eso fue también que Mother se había llevado a Suzie para New York y thank God, porque de haberse quedado en Lares, la pobre Mother se hubiera muerto antes de lo que se murió allá en el Bronx y de algo seguramente worse.

Sábado, Março 31, 2012

passalidades atuais


(excerto)

Capítulo 11
nabuco de massangana


eles?
sim eles joaquim confirmou referindo-se a o grupo ao qual também pertencia e quéra formado por brasileiros homens e mulheres de todos os tempos e que agora juntos ali nos domínios haviam decidido formar o núcleo de resistência transcendental mais conhecido como o êne érre tal a organização nacional paragovernamental atemporal especial e sensacional sem fins lucrativos outros senão ver o brasil deixar de ser um estado de coisas para se transformar num estado orientado pro bem estar geral de todas as prestenção nessa palavra todas tê ó dê a ésse todas as suas partes fragmentárias quer dizer eu você essas moças aqui dentro mais aqueles moços&moças lá e os senhores&senhoras acolá que somados a os outros tantos mais que oxalá ainda no didentro a compor o entorno quêsse país com seu vizinhos da américa do sul faz muito anseiam viver no estado integrado que sempre sonhamos ser. repare a senhorita por favor na imprecisão intencional desse sonhar no plural seja ele indicativo do efêmero presente a envolvê-la ou do eterno perfeito do pretérito ao qual pertenço. mas é isso. nosso objetivo é integrar o brasil. mas é isso. nosso objetivo é integrar o brasil.
integrar?
é. integrar. e sobre isso olha me responda uma coisa você acha que é possível o brasil tornar-se o país desenvolvido que tanto deseja ser enquanto sua gente estiver completamente dissociada.
dissociada?
é. dissociada apartada dividida tão distante mente entre os de cima e os de baixo confirmou o joaquim pedindo a ela que olhasse pras plastificadas alinhadas reluzentes confiantes felicíssimas pessoas que nas novelas e propagandas da televisão ou nos corredores do congresso sorriam esplendorosas na posse integral de todos os seus possíveis e alvíssimos trinta e dois dentes. essas pessoas pois eram elas representativas da maioria dos que com bem menos de dezesseis dentes ela encontrava no dia-a-dia das ruas e repartições brasileiras? eram? não. não eram. mas deveriam de ser não deveriam? ou por favor me responda senhorita que tipo de sociedade bipartida é essa que na televisão no congresso no judiciário é uma coisa e nas ruas é outra sendo as duas tão isolada mente diferentes entre si? pois é essa a bandeira de luta do pessoal do êne érre tal. acabar com existência dessas classes tão díspares que no brasil não só ascendem em velocidades diferentes mas também nos brasilera mente singulares elevadores sociais e de serviço sobre os quais o mundo inteiro exclama quiquéísso meu? veja só senhorita sé possível uma coisa dessa.
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Quinta-feira, Março 29, 2012

violenta mente pacífica


um bonde que começara a ter os vagões engatados talvez desde mil quinhentos e trinta quando por aqui desembarcaram os primeiros colonos de fato e quando aos poucos lenta e nem sempre sub reptícia mente alguns deles que poderiam facilitar na boa e por dever a vida da maioria dos outros sabe como é né? perceberam ser possível ganhar unzinhos a mais por fora sem fazer força e começaram a se aproveitar do trabalho de outros que olhando pra tudo aquilo disseram ah é assim que funciona é? então eu também quero! e assim desse modo por pensamentos palavras atos e omissões e por suas e de outros culpa tão grandes culpas passaram a possibilitar por séculos e séculos quase cinco ao todo um acúmulo cada vez maior de erros em cima de erros a ocasionar o lento mas seguro e inexorável rompimento dos padrões morais capazes de obrigar ébrios de poder a sujeitarem-se às mesmas leis obrigações e deveres às quais devem submeter-se todos quantos mas por quanto a maioria dos de baixo segue o exemplo da minoria dos de cima acabam aqueles sempre imitando estes na esperança de tal como eles tornarem-se mais iguais do que outroszinhos cujas vidas transcorrem sofridas em meio a agruras escassez e sobressaltos causados por um sistema aos poucos mas sempre segura e inexoravelmente capturado e idealmente desordenado pelos mais espertos entre os espertinhos a possuírem em comum além da riqueza furtada a mais absoluta falta de respeito para com os outrozinhos que embora semelhantes como tais não são percebidos pelos outros tais os mesmos que talvez desde martim afonso de souza mas certamente até os dias de hoje tendo recebido autoridade para educar curar e proteger decidem ao invés postar o olhos no além-mar sequiosos de não aqui mas para lá na corte do imperador destinar filhos economias esperanças e sobretudo o amor sem o qual são inúteis quaisquer tentativas de juntar as dissociadas partes da engrenagem social díspar injusta obra dos já mencionados e portanto passados séculos e séculos quase cinco ao todo de imprevidentes ações erráticas arroubos faraônicos e consumistas das majestosas porém lamentáveis personas dotadas de poder para mudar mas também portadoras de uma sombra horrorosa miserável e mesquinha a consumir com ávida e gananciosa voracidade tudo o quê de consumível existe e pela frente estiver desde os meios até as condições propícias estas principalmente estas! para punir com rigor perpétuo uma irredutível ousada militante juramentada e hoje inacreditavelmente cínica e galhofosa canalhice própria de pares a não reconhecer autoridade outra senão aquela que com tanto afã e denodo usurparam descrentes e desacreditados que são e estão de e por sua própria gente gente.

Sexta-feira, Fevereiro 03, 2012

variações sobre um mito identitário

O rock chegou em 1955/56. Mas antes do rock chegar tinha um negócio rolando, assim: Vem aí um ritmo alucinante! Nunca me esqueci. Comecei a ficar apavorado. A garotada falava:Vem aí um ritmo alucinante! Quando apareceu o filme No Balanço das Horas eu só faltei me esconder. Fui criado ouvindo aquelas valsas, sambas e choros. Embora ouvisse música americana, também, como todo mundo: Tommy Dorsey, muito fox, boogie… Chegou o rock e foi avassalador. Levei um susto, fiquei muito traumatizado. A primeira coisa que aconteceu foi o seguinte: começaram a quebrar os cinemas. Neguinho entrava no cinema onde tinha No Balanço Das Horas e quebrava o cinema inteiro. O escândalo fazia parte da coisa. Aí começa a mudar, realmente, toda uma ordem de comportamento. Paulinho da Viola [1]
 
Aquilo era… uma tendência que se manifestava de forma muitas vezes acanhada em poucos de meus conhecidos –e decididamente, não entre os mais inteligentes ou os de personalidade mais interessante... o que se criticava nesses meninos era a inautenticidade psicológica visível em seus esforços de copiar um estilo que os deslumbrava mas cujo desenvolvimento eles não sabiam como acompanhar. [...] Eu me sentia num país homogêneo cujos aspectos de inautenticidade –e as versões de rock sem dúvida representavam um deles– resultavam da injustiça social que distribuía a ignorância, e de sua macromanifestação, o imperialismo, que impunha estilos e produtos. Caetano Veloso [2]
 
O problema não é gostar dos Gun's & Roses. É não gostar do Brasil. Carlinhos Brown


 
em mil quinhentos e vinte e três em meliapor índia encontraram na sepultura de são tomé um pequeno amuleto esculpido em pedra verde no formato de uma rã algo fálica. furtado por um marinheiro português este objeto reapareceu dezoito anos depois pendurado no pescoço de um marinheiro da frota de francisco orellana estacionada perto da foz de um rio situado no baixo amazonas local que os espanhóis chamavam de país das pedras verdes e de onde algum tempo depois eles os espanhóis foram postos pra correr pelas icamiabas gentílico que traduzido pro vernáculo significa mulher sem marido. pois bem mas durante a fuga do pega pra capar o acima citado marinheiro espanhol deixou cair o amuleto dentro de um lago chamado iaci uaruá que no vernáculo significa espelho da lua. desde então pra comemorar o cacête que haviam dado nos espanhóis as icamiabas um passaram a realizar uma festa anual dedicada à lua durante a qual dois recebiam os índios guacaris com os quais três se acasalavam para em seguida quatro mergulhar no lago onde cinco buscavam a matéria-prima com que seis moldavam pequenos amuletos iguais àquele usado pelo marinheiro espanhol e quelas sete chamavam de muiraquitã e que oito eram oferecidos como presente aos companheiros guacaris com os quais nove elas haviam feito amor. no ano seguinte à realização das festas da lua as mulheres que tinham parido ficavam com as filhas e deeeeez! entregavam os filhos para os guacaris. e assim foi. durante a maior parte do tempo. do brasil.
mais ou menos por volta de mil novecentos e dez quando decidiu dar uma espiadinha pra ver se havia algo de bom nas selvas do brasil central um certo rúziveu vindo do norte bem que tentou mas não conseguiu ganhar um muiraquitã. mesma coisa haveria de acontecer mais tarde com outros dois daquelas bandas. um chamado fórd e outro lúduig. que também foram embora sem nada no pescoço.
em mil novecentos e vinte e sete mário de andrade informou que ao depor sobre o affair muiraquitã um papagaio falador disse o quê a constar nos autos é o seguinte e assim consta que macunaíma possuiu ci a mãe do mato rainha das icamiabas que ci depois de seis meses teve um menino de cor encarnada e cabeça chata que a cobra-preta mordeu o peito de ci que o menino sugou o leite da mãe e morreu que depois do enterro do menino ci entregou a macunaíma um muiraquitã e logo em seguida ato contínuo subiu aos céus com o auxílio de um cipó. disse ainda o depoente que ao visitar o túmulo do filho no dia seguinte macunaíma observou que sobre o túmulo do menino nascera uma planta o guaraná que como todos sabem é um energético um revigorante. contudo prosseguindo disse o depoente que macunaíma perdeu o muiraquitã mas o negrinho do pastoreio enviou a macunaíma um uirapuru que revelou ó o muiraquitã tá na mão de um peruano morando em são paulo e que macunaíma tão logo disto se fez sabedor decidiu-se sair à procura do tal peruano não sem antes ir até uma ilha onde deixou a consciência e encontrou a poçadágua encantada da qual após entrar saiu branco. e foi desse modo branco que por fim nas palavras do depoente depois de recuperar o muiraquitã macunaíma viveu triste e só até mergulhar no lago onde atacado por piranhas perdeu os lábios e uma vez mais o muiraquitã e que por conta dissotudo chateado de vez macunaíma plantou um cipó subiu ao céu e virou constelação.
depois desses fatos e durante muitos anos o paradeiro do muiraquitã que tanta falta faz à seleção brasileira tornou-se incerto pois sabia-se apenas que o presidente getúlio vargas tinha um muiraquitã o qual lhe foi roubado. sabia-se também que em mil novecentos e quarenta e quatro durante a invasão da normandia o tenente rip master o pequeno cabo rusty e rin tin tin encontraram assim de bobeira caído nas areias da praia de omaha um muiraquitã que até hoje ninguém sabe dizer coméque foi parar na mão do vigilante rodoviário o qual em confiança o entregou aos cuidados de um presidente que o liquefez em meados dos anos sessenta para prantos do sucessor que por sua vez veio a perdê-lo logo em seguida bem em seguida prum general que ao muiraquitã endureceu antes de nem sequer vê-lo ser surrupiado por outro também general que o endureceu mais ainda antes de entregá-lo a um colega de farda que jurando amá-lo e jamais deixá-lo estamos falando do miraquitã bem entendido o qual veja só como as coisas funcionam foi parar na mão de mais um outro general que o amoleceu um pouco antes de passá-lo ao colega igual mente de novo verde oliva fardada que ao muiraquitã ameaçava prender e arrebentar antes de entregá-lo a o coronel que o congelou.
depois de virar pó e fusca o muiraquitã foi parar nas mãos do capitão américa de onde a duras penas contrariando os meios e contornando até a barreira do inferno descamisados destelhados desdentados descabelados porém calçados acabaram por resgatá-lo e de tal modo que hoje dois de fevereiro de dois mil e doze dia da marmota nos estados unidos e de yemanjá no brasil o muiraquitã encontra-se mais uma vez nas mãos das icamiabas.

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[1] entrevista publicada no suplemento Mais! Folha de São Paulo p. 12 Domingo 25 de agosto de 2002
 
[2] Verdade Tropical pp.23 e 253/4 ed. Cia Das Letras São Paulo SP 1997
 
N.A.
1. Da estória relativa aos 'fatos' ocorridos em Meliapor, Índia e no Baixo Amazonas, não me recordo mais a fonte. Se por acaso encontrar (ou de ela lembrar-me), prometo citá-la. Se, neste sentido, algum leitor puder ajudar-me, a tal desde já agradeço.
 
2. Respeitando (mais ou menos) a redação original, os fatos narrados entre aspas pelo papagaio falador foram extraídos de uma sinopse de Macunaíma publicada há cerca de uns dez anos pelo prof. Marcos Petrillo Bondan em http://www.bondan.pro.br/ ; e da 31a. edição desta obra maravilhosa de Mário de Andrade (ed. Livraria Garnier Belo Horizonte MG 2000) cujas palavras finais, pela beleza pungente, tomo a liberdade de copiá-las, abaixo, para o leitor interessado.
Não havia mais ninguém lá. Os filhos dela se acabaram de um em um. Não havia mais ninguém lá. Um silêncio imenso dormia à beira do rio Uraricoera. Ninguém jamais não podia saber tanta história bonita e a fala da tribo acabada.
Um silêncio imenso dormia à beira do rio Uraricoera.
Uma feita um homem foi lá. Era madrugadinha... ‘-Curr-pac, papac! Curr-pac, papac!...’
O homem ficou frio de susto feito piá.
Então o homem descobriu um papagaio verde de bico dourado espiando pra ele. Falou: ‘-Dá o pé, papagaio.’
O papagaio veio pousar na cabeça do homem e os dois se acompanheiraram.
Então o pássaro principiou falando numa fala mansa, muito nova, muito! que era canto e que era cachiri com mel-de-pau, que era boa e possuía a traição das frutas desconhecidas do mato.
A tribo se acabara, a família virara sombras, a maloca ruíra minada pelas saúvas e Macunaíma subira pro céu...
E só o papagaio no silêncio do Uraricoera preservava do esquecimento os casos e a fala desaparecida.
Só o papagaio conservava no silêncio as frases e feitos do herói.
Tudo ele contou pro homem...
E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso vim aqui.
Tem mais não.
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Quinta-feira, Julho 21, 2011

O som das flautas


“Não é possível resolver um problema usando o mesmo raciocínio que criou o problema.”
Albert Einstein

“Não se pode esperar que entendam o problema aqueles que são pagos para não entendê-lo.”
Tony Judt

“E aquilo que nesse momento se revelará aos povos surpreenderá a todos não por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio.”
Caetano Veloso
‘O Índio ’

O som das flautas
da “terra hoje chamada Brasil
Homero Mattos Jr.
Há já alguns anos, durante uma entrevista no antigo programa Roda Viva da TV Cultura, após comentar sobre a sabedoria dos povos indígenas o jornalista Washington Novaes ouviu do maior plantador de soja do Brasil a seguinte pergunta: “O senhor está propondo que voltemos a ser índios? ” Novaes respondeu: “Não, pois, infelizmente, nós não temos mais condições de voltar a ser índios.”
Não, não temos mais condições de viver como nossos ancestrais. É um fato.
Mas, podemos resgatar, deles, a sabedoria, a visão da delicadeza que a tudo permeia.
É uma possibilidade.

Em algum momento da Europa ocidental do século XVI a consciência humana deu-se conta da autonomia do pensar e declarou que existia. Então, deslumbrada com a percepção do próprio alcance, começou a tornar-se acentuadamente individualista e, é claro, arrogante. Em seguida, fortalecida ao longo do século XVII por uma razão a julgar a si mesma iluminada em meados do século XVIII, atravessou o século XIX convencida de sua superioridade frente à quaisquer outras consciências e, desse modo, começou a desenvolver os processos através dos quais camponeses pobres, porém até então integrados, haveriam de tornar-se dissociados miseráveis, condenados à marginalidade nos guetos operários dos centros industriais e financeiros do efervescente (febril?)século XX, tão hábil (tanto à direita quanto à esquerda) em tirar proveito dos desequilíbrios naturais e a exaurir, da Terra, as pessoas e os recursos. Eis um sumaríssimo resumo do desenvolvimento da consciência ocidental, a chegar no início do século XXI ainda incapaz de solucionar as (sempre as mesmas) mazelas e vicissitudes denunciadas por Victor Hugo em Os Miseráveis (1862) ou por Charles Chaplin em O Garoto (1921) ou em Biutful (2010), filme dirigido por Alejandro Iñárritu.

Porém, talvez seja assim mesmo, penosamente progressivo, o modo de transformação da consciência: um continuum de tentativas de erro e acerto ou, em termos mais coloquiais, de constantes ‘aqui tá fundo, aqui tá raso’ a pressupor uma sucessão de quebras e reconstruções de todas as delicadezas perdidas. E, neste sentido, parece, todas as culturas, todos os povos e sociedades tem uma contribuição a oferecer para o aprimoramento de uma consciência estruturada, até agora, parcialmente, segundo a visão de mundo incorporada por antiguíssimos egípcios; antigos persas, gregos, romanos e semitas; medievais normandos e proto-italianos; modernos iberos e -nos últimos 350 anos- por modernos e contemporâneos(?) francos e anglo-saxões. Muita e respeitável coisa. Sem dúvida. Mas, felizmente, ainda incompleta ante a totalidade das contribuições possíveis.

Observe-se que o pensamento ocidental recebeu grande influência de filosofias caracterizadas, entre outras coisas, por uma acentuada unilateralidade de consciência a posicionar-se, quase sempre, discriminatoriamente a favor disso ou daquilo e somente a duras penas capaz de realizar a integração das diferenças.

Após uma leitura cuidadosa de A Terra dos Mil Povos- História indígena do Brasil contada por um índio, livro escrito em 1998[1] por Kaká Werá Jecupé http://www.kakawera.blogspot.com/ é difícil para um brasileiro não emocionar-se e não sentir-se orgulhoso desta parcela do legado multi-cultural do qual, natural ou adquirida, é portadora sua nacionalidade.

A verdade final, se existe tal coisa, exige o concerto de muitas vozes ” já disse Jung.
O espírito é uma música, uma fala sagrada que se expressa no corpo; e este, por sua vez, é a flauta, o veículo por onde flui o canto que expressa o ser-luz-som-música, que tem sua morada no coração.” diz a voz da sabedoria indígena brasileira resgatada por Kaká Werá em A Terra dos Mil Povos. Sabedoria cuja impressionante harmonia com vozes vedantas e taoístas inspira reflexões mais profundas sobre o real sentido (i.e direção) de uma globalização cujo significado (i.e espaço) parece transcender o âmbito mesquinho do “business as usual”.

No momento em que humanidade tenta recordar o abracadabra capaz de interromper o movimento frenético da enlouquecida vassoura fáustica, talvez seja oportuno olhar para modos de pensar que “mais do que mandamentos ou proibições ” possuem “uma visão do ser humano e da ação, que é estranha à nossa (ocidental) concepção.”[2]
Sob esse aspecto, aliás, é interessante observar, por exemplo, os modos substancialmente distintos sugeridos pelas duplas Lennon/Mc Cartney e Tom/Vinicius para resolver-se um problema relativo à afinação musical.
Em With a Little Help from My Friends a solução, repare-se, é mecânica, a lá Blade Runner :
O que você vai fazer se eu desafinar? Vai embora e me deixar só? Empreste-me seu ouvido e eu tentarei não sair do tom[3] .
Em Desafinado, a solução é amorosa, a lá ... digamosWalden (! ):
Se você achar qu’eu desafino, amor, saiba que isso em mim provoca imensa dor... pois no peito dos desafinados também bate um coração ”.
Squidum digundum, squidum dum...

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[1] Editora Fundação Petrópolis 3a. Edição São Paulo, SP - trechos disponíveis em http://www.homeromattosjr.blogspot.com/

[2] Luigi Zoja A História da Arrogância p. 6 Axi Mundi Editora, São Paulo,SP 2000

[3] “What would you do if I sang out of tune,
       Would you stand up and walk out on me?
       Lend me your ears and I'll sing you a song
       And I'll try not to sing out of key.”

zeropramim
dez praeles
Unidade de Excelência Educativa
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Quinta-feira, Junho 09, 2011

No tempo de dantes. Dantes?

A espera na fila imensa, o corpo negro... se esqueceu.
  Enquanto acontecia... eu estava em San Vicente.”
  Milton Nascimento
  ‘San Vicente’

“Existem muitas evidências a sugerir que o Futuro entra em nós de modo a transformar-se, dentro de nós, muito antes de realizar-se. Mais tarde, quando o Futuro acontecer, isto é, sair de nós em direção aos outros, nos sentiremos ligados e próximos a ele em nosso Ser mais interior. De tal forma, que nada estranho nos acontecerá, mas somente aquilo que desde há muito nos pertence.” Rainer Maria Rilke‘Poems’ [1]


Que o Brasil de hoje -com a maioria de seus acionistas (51 %) reconhendo-se como pardos ou negros- esteja encontrando dificuldades no preenchimento dos quesitos necessários para inserir-se na lista dos países mais desenvolvidos é consequência de uma causa datada.

Após a proclamação de independência do Brasil, teria sido razoável imaginar que aos brasileiros se apresentassem novas condições de vida social onde, sob iguais direitos e deveres, sem discriminação, estivessem sujeitos todos os brasileiros. Sim. Seria razoável pensar assim se... nossa independência houvesse sido, de fato, resultado de uma aspiração política originada a partir de uma vontade coletiva. Mas não foi isto que aconteceu. E nem poderia.

Nossa declaração de independência resultou de um ato isolado, individual. Melhor, talvez, seria dizer unilateral e estratégico, uma tentativa da imperial família Bragança de usurpar às Cortes de Lisboa um direito: o direito a uma monarquia constitucional.
Fato singular na História da Humanidade, mediante transferência de seu aparato burocrático para sua mais rica e imperdível colônia, a monarquia portuguesa conseguiu, mantendo um pé aqui outro lá -a salvo das idéias em voga na revolucionária Europa do início do século XIX – garantir seu bem-estar nos dois lados do Atlântico.
Para entender como isso foi possível é necessário conhecer algo sobre o jogo da Política Internacional no início do século XIX quando, então, o ideal político anti-absolutista da Revolução Francesa constituía séria ameaça aos interesses comerciais britânicos, que haveriam de prevalecer, hegemônicos, a partir dos movimentos de restauração das dinastias européias ocorrido no imediato pós-Waterloo e sacramentados no Congresso de Viena em 1815.
Mas esta é uma história para outras linhas que não estas, nas quais seguem considerações menos abrangentes, porém, mais próximas à nossa brasileira realidade.

Que um herdeiro dos Bragança tenha sido I (primeiro) no Brasil e IV (quarto) em Portugal, não é somente o atestado da grande plasticidade política da velha Casa Real lusitana. É, também, o certificado de origem controlada do exclusivo e excludente sistema sócio-econômico aqui implantado desde o Descobrimento e a viger absoluto até 1930 quando, desde então -buscando a sobrevida de uma validade vencida desde há muito- vige, até os dias de hoje, clandestino.
(Senão pela continuidade de um sistema social que não mais ousa pronunciar claramente e sem eufemismos o adjetivo que o qualifica, qual o motivo da incansável prestidigitação de rótulos e marcas, siglas e cores, a que se entregam representações políticas levadas, algumas e por exemplo contemporâneo, ao extremo de criar um partido sem rótulo?)

Tivesse nossa elite colonial desenvolvido uma mentalidade mercantil e industrial, talvez a história do nosso desenvolvimento social fosse outra. Mas...

Impossibilitado por 300 anos (trezentos!) de decretos reais a lhe impedir ou desestimular qualquer tipo de indústria, foi vestido de fazendeiro que o Brasil se apresentou na festa industrial do século XIX.
Economia agrária baseada em mão de obra escrava é um registro desabonador a constar no dossiê histórico de muitos países, hoje, desenvolvidos. Porém, a questão, aqui, é: por que, entre todos os países, o Brasil (que até hoje não realizou uma reforma agrária) foi o mais tardio na reformulação de seu sistema de mão de obra? Ou, de modo mais claro: por que para assegurar a viabilidade de seu sistema econômico o Brasil manteve a escravidão por tanto tempo?
A História e a Economia, é certo, têm respostas para esta pergunta.
E a Psicologia? Teria algo a nos dizer sobre esta questão?

Interrogando-se a respeito do tardio desenvolvimento da Ciência e da Indústria em culturas com vastíssimo e milenar conhecimento das técnicas para tal (como, por exemplo, Índia e China) C. G. Jung pondera: “Faltava o treino do pensamento dirigido. Não havia, nesse sentido, qualquer necessidade que exigisse um pensamento técnico. O problema da mão-de-obra estava resolvido pelo trabalho barato dos escravos [pois os havia em abundância], de modo que eram desnecessários esforços para economizar trabalho. O segredo do desenvolvimento cultural é a mobilidade e a capacidade de deslocamento da energia psíquica.”[2]

Regentes; Conselheiros; Primeiro-Ministros; Senadores; Deputados, Juízes... todos os nossos primeiros executivos, magistrados e legisladores foram grandes proprietários rurais ou filhos destes. Vale dizer: os brasileiros responsáveis pela formação inicial das regras de convivência dentro do Estado brasileiro, foram proprietários dos escravos a partir dos quais se originou o imenso contingente de, por exemplo, solícitas, prestativas e boazinhas mocinhas-da-limpeza sempre 'dispostas' a não cobrar nada a mais pela (mais valia) do cafezinho que, entre outras e muitas coisas, fizeram(?) e serviram(?) para além da restrita obrigação profissional e em detrimento do desenvolvimento cultural que, supõe-se, deveria prover-lhes o Estado brasileiro.

Muito elucidativo a respeito da questão acima é o relato contido em No Tempo de Dantes, escrito em 1945, quando sua autora, Maria Paes de Barros, contava 94 anos.
Não lhe bastasse a longevidade algo incomum, a autora deste pequeno retrato da vida doméstica de uma abastada família brasileira no final do Império, foi um caso espetacular de uma consciência que atravessou um século lúcida, adaptando-se às enormes e sucessivas transformações sofridas pela Consciência Humana durante o período em que viveu e do qual, agora, somos confortáveis críticos e apreciadores privilegiados.
Nascida em 1851 numa das mais (senão a mais) rica família de São Paulo, dona Maria faleceu em 1953.


Antes de apresentar a conclusão deste pequeno ensaio, convido o leitor interessado à leitura de alguns excertos de No Tempo de Dantes disponíveis a seguir.
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[1] pg. 237 ed. Everyman’s Library Pocket Poets, Alfred A. Knopf Inc. 1996 NY-Toronto
[2] Jung, C.G. Obras Completas vol. V Símbolos da Transformação pg.14 e nota 17 ed. Vozes Petrópolis, Rio de Janeiro 1986


excertos de
No Tempo De Dantes
Maria Paes de Barros
2a.edição ed. Paz e Terra
São Paulo, SP 1998

Desaparecida a loucura do entrudo, foi substituída por um carnaval mais complexo e dispendioso. 
Luxuosos carros percorriam as ruas. Carros particulares floridos e adornados de custosos veludos de seda levavam personagens a caráter; cavaleiros trajados com magnificência, montando ginetes ricamente ajaezados.
Hoje, já se vê, o carnaval perdeu esse brilho, desceu a escala social e popularizou-se.

Empunhando o ferro de passar, as pretas alisavam seus vestidos e as saias engomadas, deitando, como remate final, uma gota de patchouli no lencinho. A vida doméstica decorria suave e igual...

Os moradores da beira da estrada já eram conhecidos – gente pobre e hospitaleira – que cedia de boa vontade a sua habitação, de pronto invadida por toda a família. (a família da autora, em férias, rumo ao interior...)

Todo esse aspecto de uma serena vida familiar constituía flagrante contraste com a rude e trabalhosa existência dos escravos. Vida essa que somente o espírito obtuso e submisso do africano podia suportar sem revolta. E, no entanto, bastava terem um bom trato e um senhor humano e justo para que vivessem satisfeitos. O descontentamento e as queixas apareceram com os crioulos, seus filhos, que começaram a civilizar-se. Mas, apesar do trabalho forçado que não lhe esgotava a robustez excepcional, o africano, amigo da música e da dança, tinha seus dias de regozijo. O batuque era um transporte para sua alma simples. Com pequena quantia que alguns pretos conseguiam juntar, vendendo na vila o produto da gleba que lhe era concedida, preparavam-se para o dia de São João, sempre tão festivo. Compravam para si uma bonita camisa de cor e uma saia de chita de ramagens para a mulher.

Raça resistente e prolífera! Nunca se queixavam de excesso de trabalho e por pouco que lhes dessem trato, roupa e comida, viviam satisfeitos.

O Comendador dizia, com muito acerto: “-É preciso casar esse negro e dar-lhe um pedaço de terra, para assentar a vida e tomar juízo.” E, realmente, o remédio foi por vezes salutar.

[ref. à guerra com o Paraguay]
Nas classes superiores, se gabavam com orgulho de descender dos que “traziam espada ao lado”! Com que cuidado intentava saber se na família havia mescla de sangue de cor!
Cuidou-se da Marinha, de comprar e construir navios, bem como de organizar um exército. Mas, se nas classes cultas ardiam os brios patrióticos e guerreiros, o mesmo não acontecia entre o povo, para o qual ressoava dolorosamente a palavra “recrutamento”. [...] destituídos de sentimentos patrióticos [...] O alistamento... Os fazendeiros que não queriam ou não podiam mandar seus filhos, libertavam um bom número de escravos, logo enviados para as fileiras do exército.
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soldado brasileiro da FEB na Itália - 1945

“- Mãe, quem que leva nossa casa pra outra banda do rio lá no teso, quem leva? Fecha os olhos um bocadinho, velha, e pergunta assim.”
Macunaíma, em Mário de Andrade Macunaíma-  herói sem nenhum caráter.


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No tempo de dantes. Dantes? (conclusão)

“…assim, pelos olhos o Amor atinge o coração. Pois os olhos são os espiões do coração e vão investigando o que agradaria a este possuir. E quando entram em pleno acordo, firmes, os três em um só se harmonizam. Nesse instante nasce o Amor Perfeito. Nasce daquilo que os olhos tornaram bem vindo ao coração.” Guirault de Borneilh (1138-1200?)


Pensar a Idade Média européia apenas como a “Idade das Trevas” é imaginar que a construção do Renascimento ocorreu somente a partir de 1453, como uma espécie de reaproveitamento do material de demolição do muro de Constantinopla. Porém, a consciência capaz de estruturar o arrazoado expresso na epígrafe acima não parece provir “das trevas”. E não provém.

Que a cortesia seja um dos legados medievais à contemporaneidade é um dos muitos aspectos positivos de um período ocupado, sobretudo, em conter a barbárie (de godos, hunos, vândalos...) e talvez, por isso mesmo, a ressuscitar, lentamente, modos civilizados. E destes modos, aqui, interessa-nos um: o feudalismo, um sistema de reciprocidade moral unindo pessoas de uma sociedade ameaçada, através de um complexa rede de fidelidade, proteção e obrigações mútuas... a grande tarefa do feudalismo foi restaurar o ordem política e econômica de uma Europa arruinada...[1].

Porém, o sistema feudal -cujo princípio básico era a fidelidade do servo para com o lorde, do lorde para com o suserano, do suserano para com o rei, do rei para com o suserano, do suserano para com o lorde e deste para com o servo[2] não existiu......tchan, tchan, tchan, tchan !... em Portugal[3] onde, parece, a não-utilização do caminho-de-descida na mão-dupla da pirâmidade social feudal, fez configurar-se, lá (e nas colônias portuguesas), o sistema patrimonial que ao contrário dos direitos, privilégios e obrigações fixamente determinados do feudalismo, prende os servidores numa rede patriarcal, na qual eles representam a extensão da casa do soberano.[4]

Possivelmente -assim como o feudalismo foi uma resposta pragmática às necessidades do momento histórico da Europa Ocidental medieval- o patrimonialismo foi a maneira que Portugal encontrou para continuar a existir como Estado, observadas, por parte da elite dominante, as sistemáticas tentativas de união à coroa espanhola, sempre propostas por segmentos insatisfeitos da nobreza lusitana.
Contudo, se tal sistema foi vital para a existência do Estado Português, foi danoso para o desenvolvimento de uma consciência cidadã (ou republicana, como queiram) em suas, agora, ex-colônias.

Sabem os historiadores que um dos maiores (e comum) equívoco a que todos nós estamos sujeitos diante de um dado fato histórico, é o anacronismo: julgarmos as atitudes dos protagonistas de tempos diferentes do nosso a partir de conceitos ou valores vigentes em nossa época, porém, estranhos à consciência possível ou vigente no período histórico em análise.
A sociedade descrita por dona Maria Paes de Barros em Nos Tempos de Dantes, certamente, e como todas as outras do passado, fez o melhor que pode nas circunstâncias que não escolheu para viver. O processo histórico (a vida humana) é uma espécie de corrida de revezamento com bastão: transmitimos para os que nos sucedem a sabedoria (enriquecida ou empobrecida) que recebemos daqueles que nos antecederam.
Referindo-se em seu pequeno relato a ocasiões distintas da vida social, a sua e a dos outros ao redor, dona Maria utiliza, de modo notável, repetidas vezes a expressão flagrante contraste...
A questão é: por que, encerrada a primeira década do século XXI, esta expressão -adequada para definir o grau de igualdade entre as camadas sociais da sociedade brasileira no final do século XIX- continua a ser pertinentemente atual... nesta mesma sociedade?
A certa altura da narrativa em Nos Tempos de Dantes, dona Maria observa (pg.50): A vida doméstica [final do séc. XIX] corria suave e igual, somente afetada por fatores de ordem interna, sendo por isso mais intensa portas adentro do que fora, ao contrário do que sucede hoje em dia [início da década de 50 do séc. XX].

Pois bem, hoje[final da primeira década do séc. XXI], infelizmente, o que está a ocorrer nos espaços exteriores da sociedade brasileira está a afetar de modo profundamente negativo os espaços interiores da intimidade pessoal e familiar dos brasileiros que, a buscar cercarem-se cada vez mais alto e a entrincheirar-se cada vez mais irredutíveis na segurança de espaços cada vez mais privados e menos sociais, talvez acabem por implantar o 'feudalismo do século XXI'.

Para livrar-se de uma realidade percebida como imoral ou abjeta, a natureza humana costuma servir-se de uma entre duas portas de saída: ou cuida de erradicar externamente o quê percebe são as causas desta realidade; ou trata de erradicar internamente -mediante o desenvolvimento de um juízo fantasioso, porém tranquilizador e confortável- essa mesma realidade que, percebida de outro modo, seria insuportável... para uma consciência civilizada.

A pista sobre a qual se desenvolve a corrida de revezamento da Vida (o processo histórico) possui três raias nas quais em apenas uma -e só muito recentemente- o Brasil tem se exercitado: a liberdade, a igualdade e a fraternidade.
Direcionar coletivamente o olhar-espião a que se refere o trovador da epígrafe, talvez seja um modo de nós, os brasileiros (ou os tanzanianos[5]) contermos a barbárie acumulada em séculos de liberdade restrita e individualismo exacerbado.
______________________________________________
[1] Will Durant pgs. 564/579 de The Age of Faith The Story of Civilization vol. IV The Easton Press, Norwalk, Connecticut 1992

[2] Id. op. cit pg. 560

[3] Raymundo Faoro pg. 24 de Os Donos do Poder vol. 1 ed. col. Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro, Publifolha, Sp, SP 2000
Portugal não conheceu o feudalismo. Não se vislumbra, por mais esforços que se façam para desfigurar a História, uma camada, entre o rei e o vassalo, de senhores dotados de autonomia política. (ver também opinião de Herculano de Freitas em nota 42 pg 32)

[4] Id. op. cit pg. 25

[5] Talvez os brasileiros (ou tanzanianos, ou alguém) sejam capazes de se esquivar, apesar de tudo aquilo que as superpotências podem fazer para impedi-los. Talvez algum dia os cidadãos alfabetizados de algum país possam ver perspectivas onde antes viam apenas perigos. Ver um, até agora, não-sonhado futuro nacional em vez de ver o país deles como condenado a seguir o papel que algum teórico estrangeiro escreveu para ele.
Richard Rorty, filósofo estadunidense, professor da Universidade de Stanford
cit.In caderno Mais! pág. 7 Folha de São Paulo Domingo 16 de setembro 2001





Sábado, Fevereiro 12, 2011

Outros 500

trechos de
OUTROS 500 - Uma Conversa Sobre A Alma Brasileira”
Lucy Dias e Roberto Gambini
1999 ed. SENAC ISBN 85-7359-080-7
1
“Estar todo mundo junto cria alegria. O que ocorre do lado de fora é resultado do que ocorre dentro de nós. Necessitamos entender o que nos move e inspira a agir. Não estou preocupado com a verdade histórica, estou preocupado com o ressurgimento de uma alma perdida. O que não tem lugar dentro e não pode ser assimilado, será projetado para fora e destruído. Um menino brasileiro, filho de pai português e mãe tupinambá, não tem lugar na corte, é um pária, fruto de um acaso. Também não pertence ao mundo da mãe. Vai ficar num vazio, à espera de que algo seja construído. Não sabe que direção seguir e nunca saberá quem é. Nem pai nem mãe lhe servirão de espelho ou modelo de identidade.

O Índio
O mundo da mãe tinha mais Eros. Não havia a separação abrupta entre trabalho e lazer. Uma condição rara de instinto e cultura, juntos, criavam um comportamento que não estava em conflito com nada. Não estava em conflito consigo, com a sociedade, com o pai, com o marido, com os papéis sociais. Não havia neurose. Não existia a sobrecarga da má consciência sobre a sexualidade. Não havia a noção de culpa. Não havia promiscuidade e falta de decoro. Havia regras de comportamento sexual. Todos transando com todos, fazendo o que bem entendem onde quiserem, é uma projeção sem- vergonha do mundo branco, qualquer antropólogo sabe disso.

O Branco
Amaldiçoado na tradição judaico-cristã, expulso do paraíso, o pão é conquistado com o suor, o parto é uma amargura, o trabalho é uma amargura. No momento das Grandes Descobertas, vitorioso, nada segura esse homem com tanta energia investida no ego. Dono de todas as verdades, de todas as certezas e de todas as armas. Mata mouros e persegue judeus porque os considera étnica e espiritualmente inferiores. Não é o modelo do quaker americano- marido, mulher e uma enxada. O Novo Mundo é uma válvula de escape psíquica para a sombra da Europa. Reinvindica territórios, tem impulsos genocidas, estupradores e saqueadores. Explorador, tem mobilidade espacial, uma tropa atrás e uma obsessão na frente. A consciência do senhor de engenho, da sinhazinha, do padre, do oficial, do bacharel, do coronel… são consciências felizes porque estão aliviadíssimas, não tem que carregar nada. "Não existe pecado debaixo do equador."

O Negro
Na escola aprendemos que alguém tinha que construir feitorias, igrejas, abrir estradas, fazer aldeias, cortar pau-brasil, plantar cana… e não era o índio. O negro vem para uma imposição a que o índio não resistia, a escravidão. Para a criança fica assim: o negro era forte, ele agüentava, por isso era escravo. Parece que se trata apenas de uma contribuição material. Não existe segregação racial no Brasil. Não precisa. A exclusão social faz esse trabalho. Entrar numa escola e ter um lugar no mercado de trabalho é ótimo, parece até que seria o máximo, mas não é. Fica faltando um trabalho de alma, de reconhecimento, de relação entre partes. O Estado ou a sociedade brasileira deveriam reconhecer que tem um débito para com os descendentes de escravos. E isso precisaria ser compensado de alguma maneira. Um gesto que seja resultado de toda uma transformação psíquica, ou seja, propor-se a reparar.

Nós
Uma dimensão fundamental fica oculta nessa História. Como é que se inseriram esses 3 grupos para começar a construir uma identidade, se 2 deles serão negados na sua humanidade, nos seus valores e na sua alma? Não houve síntese, porque há uma negação. Havia uma recusa, por parte do elemento dominante, de incluir a identidade dos dominados. Os filhos da terra são maltratados e desprezados. Nós precisamos de símbolos de comunhão, de síntese, de junção das partes. Hoje vemos o sofrimento dos miseráveis nas cidades e, também, passamos ao largo. O outro, de classe inferior, as crianças abandonadas, não nos dizem respeito. Nos tornamos bárbaros com o passar dos séculos, até chegar onde chegamos. Nascemos como um povo que se aliena da dor alheia, desumanizando o semelhante. As diferenças sociais não nos indignam, porque se confundem com diferenças físicas, naturais e corpóreas. O Brasil tem muita energia vital, mas tem uma tristeza enorme. A tristeza daquele que não vê o seu valor reconhecido, daquele que sabe que podia ser diferente, que não tinha que ser assim, que arrasta uma coisa que não combina. Isso entristece porque não se consegue mudar, mas a gente sofre. Cada uma das barbaridades que acontecem a cada dia, as barbaridades brasileiras, a mortalidade infantil, a seca, o caos urbano, a violência, a imoralidade e a corrupção, as patologias todas… Há um débito psíquico que, se não for formulado e trabalhado, não permitirá que surja um processo de conscientização da identidade. A partir do segmento dominante da sociedade continua a haver um mecanismo perverso de impedir que pedaços da alma brasileira façam parte do todo. Não espero mudança por parte da elite, mas espero, sim, da consciência coletiva brasileira. Quem somos nós? Qual é a nossa História?”

2
…a formação do povo brasileiro… começamos com um ato de destruição e de negação. …duas civilizações se encontram, se juntam, mas uma nega a outra. Os índios são o objeto da primeira negação. Mas logo em seguida vem a segunda, que é a negação do negro… Quando pensamos em "nós, os brasileiros", temos consciência de que somos um povo multirracial… mas na hora em que alguém, de fato, tem que pensar o que é o brasileiro, não pensa no negro. É um pouco assim: 'eu sou feito de várias partes, porém só me identifico com algumas dessas partes e não com outras' ou 'acho que certas partes não tem o mesmo valor que outras' Aí reside o problema… reconhecemos uma coisa num plano mas a negamos no outro… não levamos em conta o contingente de alma daqueles que foram dominados. Então, aí se oculta uma sabotagem…a sociedade brasileira está amarrada mas não sintetizada …não houve amálgama, não houve síntese. Por quê? Porque houve uma negação. …importa é o nível onde não houve expressão, reconhecimento, comunhão, e que continua sendo uma dimensão dramática, da qual só podemos ver os efeitos… isso cria um ser mal-resolvido. Cria uma tensão interna em nível profundo… não podemos ser um todo enquanto houver esse tipo de relação entre as partes. Nós precisamos de símbolos de comunhão, de síntese, de junção das partes para a produção de uma nova resultante. Esses símbolos nos orientariam para um tipo de reflexão coletiva que tivesse como objetivo superar esse estado que nos aprisiona. Isso nos ajudaria em termos de superação do subdesenvolvimento e de afirmação do Brasil… Essa situação que vivemos prende energia, impede o aparecimento do novo. É preciso soltar essas amarras para deixar fluir a criatividade cultural e social. Deixar surgir novas formas de sociabilidade, que depois vão virar projetos políticos e sociais. Quando se destrava uma estrutura profunda que aprisiona a energia, essa força vem à tona. É disso que o Brasil precisa.                                 



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ZEROPRAMIM
DEZPRAELES
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Terça-feira, Dezembro 28, 2010

Os diamantes brutos do Brasil

...e seus desastres sociais
Homero Mattos Jr.

No Brasil, de geologia consolidada não há graves abalos, cataclismas ou convulsões tectônicas nem vulcânicas. Também, não se encontra o Brasil sujeito a maremotos, tsunamis, monções arrasadoras e outros grandes aguaceiros afins. Nossas grandes metrópoles inundam no período das chuvas de verão. Mas essa é outra e recentíssima história, onde a Natureza apenas reage.
Nossos desastres, de longuíssima data, são sociais.
E não se trata de, aqui, recontar aquela famosa piadinha de viés colonizador, na qual Deus -questionado por alguns se, por acaso, não teria sido grande demais o número de benesses naturais com as quais houvera contemplado o Brasil- responde: "-Vocês vão ver o povo que eu vou colocar nesse lugar." (E os rastaqueras morrem de rir). Trata-se de clamar por um fim, um basta! no processo conhecido mundialmente como 'brazilianization' e que consiste em elevadas taxas de crescimento econômico acompanhadas por aumentos exponenciais dos níveis de desigualdade na distribuição de... tudo!
O nível insuportável da violência e criminalidade urbana no Brasil é fruto de... repare: se você é, digamos, um puritano inglês do século XVII decidido a sair com a família de seu país de origem em busca de outro lugar para reconstruir a vida, sua disposição psíquica, moral e filosófica é completamente diferente daquelas encontradas em seu contemporâneo, por exemplo, digamos um português aventureiro, disposto a arrancar o que puder de uma terra para qual pouco está se lixando, uma vez que seu interesse é voltar -o mais rápido possível e com o bolso o mais cheio cabível - para sua terra natal, lá, onde estão seus mais elevados afetos e aspirações morais. Pois é. Como diz Roberto Gambini, entre um quaker com uma enxada e a familia, e um bandeirante com uma escopeta e uma licença para matar, há uma enorme diferença. Ou, dois tipos de Justiça, acrescento eu.
Mas nossos desastres são reversíveis.
A palavra 'favela' designa uma planta da região de Canudos, no sertão da Bahia.
Depois que (as autoridades) massacraram os habitantes do lugar (e precisaram fazer quatro tentativas para realizar a 'façanha'), os soldados que retornaram foram desmobilizados e... obrigado, benção e tchau! tal qual aos escravos ocorreu após a Abolição, foram deixados à míngua, na base do cada-um-por-si. Com o início das obras de reurbanização do Rio de Janeiro (1910), a maior parte destes soldados começou a se instalar com suas famílias, nos morros, em locais denominados à lembrança da miséria que haviam conhecido em Canudos.
E, continue reparando, é das favelas que provém parte considerável das (talvez as maiores) conquistas culturais e desportivas pelas quais o Brasil conseguiu, e ainda consegue, gerar alguma simpatia internacional.
Imaginemos, então: quanto mais poderia realizar o Brasil se ao povo das favelas (i.e. 'Canudos') fossem concedidos os mesmos incentivos, meios e condições favoráveis que até agora só lhe é possível desfrutar na música e no esporte?
Por ‘povo das favelas’ quero referir-me aos descendentes do menino abaixo retratado:

... menor de nove anos, figurinha entroncada de atleta em embrião, face acobreada e olhos escuríssimos e vivos, surpreendeu-nos pelo desembaraço e ardileza precoce. Respondia entre baforadas fartas de fumo de um cigarro, que sugava com a bonomia satisfeita de velho viciado. E as informações caíam, a fio –quase todas falsas, denunciando astúcias de tratante consumado. Os inquiridores registravam-nas religiosamente. Falava uma criança. Num dado momento, porém, ao entrar um soldado segurando um [rifle] Comblain, a criança interrompeu a fala ininterrupta. Observou, convicto, entre o espanto geral, que ‘a Comblé’ não prestava. Era uma arma à-toa, ‘xixilada’: fazia um ‘zoadão danado’, mas não tinha força. Tomou-a; manejou-a com perícia de soldado pronto; e confessou, ao cabo, que preferia a ‘Manuliche’ (Mannlicher), uma carabina ‘de talento’. Deram-lhe, então, uma Mannlicher. Desarticulou-lhe agilmente os fechos, como se fosse aquilo um brinquedo infantil predileto. Perguntaram-lhe se havia atirado com ela em Canudos. Teve um sorriso de superioridade adorável: ‘-E por que não? Pois se havia tribuzana velha!... Haverá de levar pancada, como boi acuado, e ficar quarando à toa, quando a cabrada fechava o samba desautorizando os praças?!
Aquela criança era, de certo, uma deformidade estupenda. E um ensinamento. Repontava, bandido feito, à tona da luta, tendo sobre os ombros pequeninos um legado formidável de erros. Nove anos de vida em que se adensavam três séculos de barbárie. ...
Euclides da Cunha 1899, em ‘Os Sertões’ pp 310/311

O retrato do colonizado precedido pelo retrato do Colonizador





Opinião pessoal: a foto e a legenda, da capa acima, constituem tentativa (goebbeliana) de desconstruir uma instituição republicana.
A metonímia a legendar a foto é inadequada. Não se presta à sua função. A parte (um milhão e meio) com a qual se pretende sugerir possa ser a feição do todo (cento e trinta milhões) é mínima.
Contudo, tal intento, embora inaceitável, é compreensível. À luz de nossa História. Sobretudo em um momento em que, pela segunda vez nesta História (a primeira foi às vésperas de 1964...), o Congresso Nacional passa a ter a maioria de seus representantes simpática a um Executivo popular.
A descolonização do Brasil, bem como a de toda a América Latina, ainda é um processo em andamento.
Nossa Declaração de Independência, em 1822, resultou de um ato isolado, unilateral e... familiar. Familiar no sentido mais feudal e cosa nostra da palavra família.
Mediante transferência de seu aparato burocrático para sua mais rica e imperdível colônia, a monarquia portuguesa (a família Bragança) conseguiu, mudando sem mudar, garantir a continuidade de seu bem-estar nas duas pontas: lá e aqui.
Que o imperador Pedro tenha sido primeiro no Brasil e quarto em Portugal, mais do que prova da grande versatilidade e manha de nossas antigas elites dirigentes em assegurar (localmente) privilégios coloniais em tempos (mundialmente) revolucionários, evoca uma reflexão sobre quão modificada encontra-se, nos dias atuais, tal tendência (local).
Voltarei a esse tema.
Por ora gostaria de convidar, o leitor interessado, a conhecer algumas passagens da obra a partir da qual tomei emprestado o título deste breve ensaio.
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excertos de
'O retrato do colonizado precedido pelo retrato do Colonizador'
Albert Memmi
3a.edição ed. Paz e Terra, São Paulo, SP 1989

o Colonizador
Se seu nível de vida é elevado, é porque o do colonizado é baixo; se pode beneficiar-se de mão-de-obra, de criadagem numerosa e pouco exigente; se obtém tão facilmente postos administrativos, é porque estes postos lhe são reservados e porque o colonizado, deles, está excluído; quanto mais respira à vontade mais o colonizado sufoca. Pirâmide dos tiranetes: cada um, socialmente oprimido por outro mais poderoso, encontra sempre um menos poderoso em quem apoiar-se, tornando-se por sua vez tirano. A multidão de mendigos, as crianças que perambulam semi-nuas, a evidente organização da injustiça, o escândalo econômico, político e moral... Para viver sem angústia, é preciso viver distraído de si mesmo e do mundo; é preciso reconstruir em torno de si os odores e os ruídos da infância. ...simulando nada ter visto da miséria e da injustiça que entram pelos olhos; empenhado apenas em conseguir seu lugar, obter sua parte...subitamente providos de um título surpreendente ...adquirem tão desmesurada confiança em si mesmos que se tornam estúpidos.
Olhando mais de perto, não descobrimos, em geral, além do fausto ou do simples orgulho, senão homens de pequena estatura moral. Políticos, encarregados de modelar a história, quase sem conhecimentos históricos, sempre surpresos com os acontecimentos, recusando os fatos ou incapazes de prever. ...como privilegiado não legítimo reivindica seu lugar e o defenderá por todos os meios. Triunfa de si mesmo uma imagem que condena. Sua vitória de fato, portanto, jamais o satisfará: resta-lhe lavar-se de sua vitória, e das condições nas quais foi alcançada. (então) esforça-se por falsificar a história, reescrever textos ..Não importa o quê, a fim de conseguir transformar sua usurpação em legitimidade.
Como?
...demonstrar os méritos do Colonizador ou deméritos do colonizado, (estes) tão graves que não podem senão suscitar tal desgraça. E esses dois esforços são de fato inseparáveis. ...imagens não são inconseqüentes, difundidas acabam por repercutir, de certa maneira, na conduta e portanto na fisionomia real do colonizado. Que é o fascismo senão um regime de opressão em proveito de alguns? As relações humanas (na relação colonial) resultam de uma exploração tão intensa quanto possível, fundam-se na desigualdade e no desprezo ...Existe, enfim, um antagonismo real, com fundamento político e econômico. "Aqui", "o povo daqui", "os costumes deste país"... são sempre inferiores, e muito, em virtude de uma ordem fatal e preestabelecida.
O Colonizador não faz coincidir seu futuro. Só está aqui de passagem, não investe senão no que rende a curto prazo. A verdadeira razão ...O Colonizador jamais decidiu-se a transformar o colonizado à sua imagem. Não pode admitir tal adequação que destruiria o princípio de seus privilégios. A explicação ...Essa impossibilidade ...prende-se à natureza ...Aquele que se sabe em má postura ideológica ou ética, gaba-se, em geral, de ser um homem de ação, que retira lições de sua experiência. Conjunto de condutas, de reflexos adquiridos, exercidos desde a primeira infância, valorizado pela educação, o racismo do Colonizador está tão espontaneamente incorporado aos gestos, às palavras.
...atitude racista: descobrir e por em evidência as diferenças; valorizar essas diferenças em proveito do Colonizador e em detrimento do colonizado; levar essas diferenças ao absoluto, afirmando que são definitivas, e agindo a fim de que se tornem tais. O que poderia contribuir para algo em comum, o Colonizador salienta, ao contrário, tudo aquilo que separa. O fato sociológico é batizado biológico, ou melhor, metafísico. Pertence à essência do colonizado (e assim) a relação torna-se uma categoria definitiva. "É o que é porque eles são o que são" e nem um nem outro jamais mudará.

o colonizado
A existência do Colonizador reclama e impõe uma imagem do colonizado. Álibis, sem os quais a conduta do Colonizador, sua existência, pareceria escandalosa. ...a preguiça ...Nada poderia legitimar melhor o privilégio do Colonizador que seu trabalho; nada poderia justificar melhor o desvalimento do colonizado que sua ociosidade. O retrato mítico do colonizado conterá então uma inacreditável preguiça. O do Colonizador: o gosto virtuoso da ação. Subalimentação; baixos salários; futuro bloqueado; significação irrisória de seu papel social ...a independência da acusação de quaisquer condições sociológicas e históricas, institui o colonizado como ser preguiçoso. A preguiça é constitutiva da essência do colonizado. Verdadeiramente, o colonizado importa pouco para o Colonizador. (que) Longe de querer apreender o colonizado na sua realidade, preocupa-se em submetê-lo a essa indispensável transformação. ... o colonizado "não é isso", "não é aquilo". Jamais é considerado positivamente. "Eles são imprevisíveis"... "Com eles nunca se sabe!"...
Uma estranha e inquietante impulsividade parece comandar o colonizado. É preciso que o colonizado seja bem estranho, em verdade, que permaneça tão misterioso após tantos anos de convivência... despersonalização... afogamento no coletivo anônimo. "Ele são isso... Eles são todos iguais". Se a empregada doméstica não vem certa manhã, o Colonizador não dirá que ela está doente, ou que ela engana, ou que ela está tentada a não respeitar um contrato abusivo (sete dias em sete). Afirmará que "não se pode contar com eles". ... acontecimentos pessoais, particulares, da vida de sua empregada; essa vida na sua especificidade não o interessa, sua empregada não existe como indivíduo.
... esse delírio destruidor do Colonizador ... Em confronto constante com essa imagem de si mesmo, proposta e imposta, acaba o colonizado por reconhecê-la como um apelido detestado, porém convertido em sinal familiar. A acusação o perturba, o inquieta. "Não terá um pouco de razão?", murmura o colonizado. "Não somos, de certo modo, um pouco culpados?" "Preguiçosos, já que temos tantos ociosos?" "Medrosos, já que nos deixamos oprimir?"
Desejado, divulgado pelo Colonizador, esse retrato mítico e degradante acaba, em certa medida, por ser aceito e vivido pelo colonizado. Ganha assim certa realidade e contribui para o ‘retrato real’ do colonizado. A ideologia de uma classe dirigente, sabemos disso, faz-se adotar em grande parte pelas classes dirigidas. Verifica-se certa adesão do colonizado ao Colonizador. Mas essa adesão é resultado, e não causa; nasce depois e não antes.
O colonizado não se sente nem responsável nem culpado, nem cético, está fora do jogo. Não é mais, de modo algum, sujeito da história... Acabou por perder o hábito de qualquer participação ativa na história e nem sequer mais a reclama. ?Como explicar que um punhado do Colonizadores, freqüentemente arrogantes, possa viver no meio de uma multidão de colonizados?
Enquanto que a indulgência é plena para os pequenos arsenais do Colonizador, a descoberta de uma arma enferrujada acarreta uma punição imediata ao colonizado.
"Não são capazes de se governarem sozinhos" diz o Colonizador. Inteiramente afastado do poder, acaba (o colonizado), com efeito, dele perdendo o hábito e o gosto. Como poderia interessar-se por aquilo de que é tão decididamente excluído? Como poderiam tão longas férias suscitar competências?
Pode o Colonizador prevalecer-se deste Presente fraudado para barrar o Futuro?
Essa mutilação social e histórica é provavelmente a mais grave e mais carregada de conseqüências. Considerando-se excluído da cidadania, o colonizado perde igualmente a esperança de ver seu filho tornar-se um cidadão. Cede, renunciando ele mesmo a essa esperança, não alimenta mais esse projeto e não lhe dá lugar algum na sua pedagogia. Nada, pois, sugerirá ao jovem colonizado a segurança, o orgulho de sua cidadania. Dela não esperará vantagens, não estará preparado para assumir seus encargos. Nada, tampouco, é claro na sua educação escolar, onde as alusões à cidadania, à nação, serão sempre relativas à nação do Colonizador. Esse vazio pedagógico, resultado da carência social, vem, pois, perpetuar essa mesma carência.
Sua fisionomia endurecida há séculos não é mais do que uma máscara, sob a qual ela sufoca e agoniza lentamente. Tal sociedade não pode reabsorver os conflitos de gerações, pois não se deixa transformar.
A relação entre o Colonizador e o colonizado é instável, seu equilíbrio está incessantemente ameaçado, sua personalidade oprimida, um dia se dispõe a recusar sua insuportável existência. ... mudar de condição mudando de pele ... ambição de igualar-se a esse modelo prestigioso, de parecer-se com ele até nele desaparecer.
No momento em que o Colonizador mais transige com sua sorte, o colonizado recusa-se a si mesmo com maior tenacidade. ...um complexo de sentimentos que vão da vergonha ao ódio de si mesmo. Em nome daquilo que deseja vir a ser, empenha-se em empobrecer-se, em arrancar-se de si mesmo. Para libertar-se, aceita destruir-se.
A condição da relação entre o Colonizador e o colonizado não pode ser mudada senão pela supressão da relação colonial. É inútil pretender agir sobre um ou outro, sem agir sobre essa relação.
...há um drama ...A colonização falsifica as relações humanas, destrói ou esclerosa as instituições e corrompe o Colonizador e o colonizado.”

Homero Mattos Jr.
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Quem sou eu

Minha foto
Natural de Sp, SP, começei a trabalhar aos 16 anos como office-boy, em 1970. Em 1976, depois de passar no vestibular para o curso de História na USP, decidi cursar Geografia. Seis anos mais tarde, graduei-me em Marketing na ESPM. Em 1983, cursando o terceiro semestre do curso de pós-graduação em Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, recebi uma proposta irrecusável para trabalhar em Salvador, BA, onde consegui economizar o suficiente para dedicar-me ao estudo diletante de História, Psicologia e Religiões. Desta dedicação resultam, respectivamente, os conteúdos publicados em www.passalidadesatuais.blogspot.com ; www.homeromattosjr.blogspot.com (inclui, também, textos de autores diversos) e www.allisonlyone.blogspot.com Atualmente, além de escrever ensaios e contos marcados sobretudo por uma crítica à realidade social brasileira (ver www.homerotextos.blogspot.com) ocupo-me em -a partir do revolucionário conceito de negócio-social idealizado pelo professor, economista e Nobel da Paz 2006 Muhammad Yunus- concretizar a Unidade de Excelência Educativa (ver www.uniexceledu.blogspot.com)